quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Ó meninos, sejam frugais! Claro que aguentam ...

Ó meninos, sejam frugais!
Esta retórica em defesa da frugalidade esconde um elitismo repugnante.
A trágica exibição do homem do BPI, ontem na Assembleia da República, há-de ficar para a história como mais um insulto aos clientes e aos pequenos accionistas do banco, mostrando uma vez mais que o homem simplesmente não tem espessura nem qualidade para o lugar que ocupa (dramas das sucessões muito cuidadosamente geridas ... no BCP o resultado não terá sido melhor ... ) .

Claro que aguentamos.
Claro que houve quem aguentasse (frugalmente) os campos de concentração alemães, os goulags sovieticos, os killings fields do kmhers vermelhos do Cambodja, e outros casos tristemente semelhantes. Mas argumentar com esse facto, ignorando todos os que soçobraram pelo caminho, é simplesmente perverso e inaceitável.
Mas os discursos dessas personalidades (o homem do BPI, a senhora do Banco da Fome, ...) mais não são do que partidarizar ideologicamente serviços socialmente transversais, colando-se directamente ao discurso neoliberal do governo e à sua narrativa pró-empobrecimento "custe o que custar". É que é sempre útil e conveniente estar do lado do poder ...
Agora o banco não se pode admirar se muitos dos seus clientes se acharem insultados e (frugalmente) optarem por não ter lá mais as suas contas bancárias. Até talvez não as tenham lá agora - mas pode ser que no futuro, quando numa volta da economia os bancos se tornarem a lembrar dos seus ex-queridos clientes - esses queridos clientes se lembrem ainda que o banco pode (frugalmente) continuar a viver sem os seus ativos ou créditos. Muitos não o vão esquecer tão cedo.

Por falar nisso: o homem do BPI e os seus colegas também não aguentariam sem os colossais bonus de gestão com que têm sido premiados?  E será que devolveram alguma coisa desses prémios de gestão quando os fabulosos investimentos sem risco em divida soberana feitos pelo BPI degeneraram e deram milhões de prejuízos aos accionistas? Ou quando iam dando cabo do banco nessa trapalhada que foi a burlesca tentativa de compra do BCP (lembram-se)?. Os (maus) resultados do BPI falam por si - e não são só consequência da crise internacional do sistema financeiro:

Cotação das acções do BPI (2007-2013)
Aspirar por uma melhor qualidade de vida é legitimo, é o motor e a justificação do desenvolvimento social, e os governos servem precisamente para ajudar a viabilizar isso - não para deliberadamente empobrecer o pais. Políticas de deliberado empobrecimento do país são uma traição ao eleitorado. Inevitaveis? Não necessáriamente. Mesmo no meio da maior tormenta, é a esperança e o direito a melhores dias que motiva uma sociedade - não o discurso ideológico do castigo á função publica e aos trabalhadores poucos produtivos. O discurso do viver "acima das possibilidades" é umm insulto confrangedor a todos os que têm tentado melhorar a sua qualidade de vida - inclusive pela via do crédito.

É viver acima das possibilidades ambicionar por uma casa a crédito, mesmo que o orçamento seja curto? Claro que se podia ter continuado a viver (frugalmente) em enxovias, em ilhas e noutras condições, em apartamentos sem elevadores e outras facilidades "modernaças" ...
Claro que se podia continuar a viver (frugalmente) sem carro nem televisão.
E (frugalmente) sem máquinas de lavar e frigorificos, e outros electrodomésticos.
E também é claro que podem continuar a viver (frugalmente) sem férias em hoteis e viagens aqueles sitios a que só os outros tinham o dinheiro e o direito a ir.
Concerteza que se pode viver (frugalmente) sem cartões de crédito e facilidades de crédito ...
E também se pode viver (frugalmente) sem tanta educação, com menos cursos e menos doutores e engenheiros. Para quê um curso (o tal bife de vaca) se se pode viver (frugalmente) com o básico, ou, seja, o secundário (as batatas, vá lá - o franguito)?
E para quê tanto cimento, tantas (boas) (auto) estradas, se se pode viver (frugalmente) com a estradas antigas, ou mesmo sem estradas, e (frugalmente) sem tantos automóveis de gente que os comprou com sacrificio e depois se vê á rasca para os pagar ...
Para quê tanta coisa, se também se pode viver (frugalmente) com metade das pensões e reformas, ou mesmo até com menos. Meio século para trás e quase que nada dessas modernices de pensões e subsidios existiam ... e sobreviveram ...
Para quê hospitais publicos bons e bem equipados, se se pode viver (frugalmente) sem isso?

Não perceber isto é simplesmente não compreender a política - e a vida.
Infelizmente há em Portugal, e na Europa, quem não o compreenda.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Mitos e realidades de um (não) regresso aos mercados

Faz sentido este dito "regresso aos mercados"? A perplexidade da opinião púbica é manifesta: "então de repente isto passou a ser uma maravilha e acabaram os problemas? isto é um sucesso?".

Na frente interna, que depende deste governo, a situação é hoje bem pior do que era quando foi assinado o memorando com a troika:
- a divida aumentou, em valor absoluto e % PIB
- o deficit mantém-se muito acima dos 3% (mesmo acima do dobro, sem operações extraordinárias)
- a recessão continua (crescimento negativo e acima do previsto)  e acentuou-se, tendo-se entrado numa espiral recessiva
- o desemprego explodiu e não tem perspetivas de redução a curto prazo
- as metas internas nunca foram cumpridas, antes pelo contrário - este é um governo que perdeu a credibilidade interna
- as perspetivas a curto e médio prazo são muito sombrias quanto a crescimento e estabilidade social a curto e médio prazo
- mesmo o tão apregoado "sucesso" so equilíbrio da balança comercial é ilusório e instável, consequência da brutal quebra de consumo interno e do investimento público e privado - aos primeiros sinais de retoma inevitavelmente inverter-se-á (a menos que os portugueses nunca mais mudem de carro, televisores, frigorificos, ... e que as empresas portuguesas deixem de comprar novos equipamentos ... algo como tem acontecido em Cuba!)

Logo o risco interno (endogeno da economia portuguesa) é hoje em dia bem pior do que era há dois anos e com perspetivas ainda mais sombrias. Portanto o risco interno aumentou - logo a taxa de juro a médio e longo prazo devia por isso estar a aumentar e não a diminuir.
Se está a diminuir é porque esse aumento do risco interno é percebido como pouco relevante a médio prazo - porque o risco fundamental é externo a Portugal e depende em 80%, 90%, ou mesmo mais, das políticas globais da zona euro e da UE, praticamente exógenas á economia portuguesa. E essas sim, têm mudado e com isso também a avaliação do risco se alterou dramáticamente - em especial com as posições e intervenções do BCE. Se Portugal pode hoje fazer estes tipo de operações é porque essa componente exógena se alterou favoravelmente - sem, como é publico e notório, que para isso o governo se tivesse seriamente empenhado ou lutado por isso.

Mas esta aparente vitória do governo, é na realidade uma derrota:
1. Foi feita em condições bem piores do que podia muito bem ser: se não fosse o colossal falhanço das políticas deste governo, as perspetivas da economia portuguesa não seriam tão sombrias, e o risco interno seria menor, para um mesmo risco externo, e provavelmente teríamos conseguido uma taxa de juro marginalmente mais favoravel. Tivesse a política dos últimos dois anos sido de "austeridade inteligente" e não de bruta "austeridade custe o que custar", com enormes sacrificios inúteis (de pouco ou nada serviu o corte dos subsidios em 2012 perante o colapso que criou na procura interna e que agravou o deficit, a dívida e o desemprego, tudo exatamente ao contrário do que o governo anunciava) e o regresso aos mercados teria sido mais proveitoso para os portugueses.
2. Segundo, se o governo se tivesse empenhado seriamente em mudanças no posicionamento europeu perante a "austeridade custe o que custar", o risco externo poderia ser porventura algo menor. Mas o governo nunca soube / quiz fazer isso.
3. Há ainda a questão da sindicância da operação: porquê e para quê? Afinal nem o governo parece acreditar que exista uma genuina procura pela dívida portuguesa, e não arrisca ir ao mercado sem uma (muito cara) rede de segurança. A sindicância da operação é uma contradição manifesta com a retórica da propaganda do governo, e serviu (uma vez mais) para passar para a banca uns bons milhões de euros (provavelmente dezenas de milhões de euros)

Mas há que ser realista: esta operação é uma gota de água nas necessidades de financiamento da economia portuguesa durante este e próximos anos, e não significa que Portugal possa a partir de hoje colocar divida no mercado sem problemas. O governo esforça-se por sugerir isso - mas a realidade é diferente.
Tão diferente que ao mesmo tempo que anuncia exultante este dito "sucesso" (como seu), o governo teve mesmo que pedir mais tempo á troika. Se Portugal tivesse mesmo genuinamente "regressado aos mercados", não teria precisado deste pedido desesperado de mais tempo - depois do próprio governo ter sistematicamente dito que não queria nem precisava disso.

Até no caso da Grécia, as taxas de juros de financiamento têm estado também em queda acelerada, apesar de continuarem a níveis superiores ás de Portugal, mas que uma vez mais mostram a influencia decisiva do risco externo sobre o risco interno, nas circunstancias atuais da zona euro.
A crise portuguesa é acima de tudo uma vítima da crise do euro e da Europa (ao contrário do que o propalado embuste da narrativa do "gastamos acima do que devíamos" sugere). Ora os mercados parece terem por adquirido que isso de deixar cair a Grécia era afinal "bluff" e que mesmo em condições extremamente negativas e sem perspetivas (como continua a acontecer na Grécia), afinal o centro não deixou cair a periferia. Juntem-se as medidas positivas do BCE e o cenário do risco externo alterou-se radicalmente. Graças a Deus que podemos tirar algum partido disso agora. Pena é que não passamos tirar ainda melhor partido disso.
Na realidade a cosmética disto tudo parece ter objetivos tanto externos (BCE, criando condições para poder auferir de um apoio muito maior do mesmo BCE, logo "fora dos mercados", paradoxalmente por já não estar "fora dos mercados"), como internos (propaganda, nas vésperas de querer definir os tais 4 mil milhões de cortes que irão provavelmente acentuar ainda mais a espiral recessiva em que nos meteram).

sábado, 12 de janeiro de 2013

Muito elucidativo: Angelo Correia dixit ...

1. Liguei a televisão e na TVI24 falava o anterior patrão (e mentor?) do atual primeiro ministro: Angelo Correia. Também anterior mentor de Luis Filipe Menezes, quando este pensava que tinha capacidade para liderar o PSD (e pelos vistos Angelo Correia também pensava que Menezes tinha essa capacidade).
Primeiro fiquei surpreendido. Pus a gravar. Depois compreendi que a entrevista talvez seja muito significativa, por aquilo que mostra de divergencias internas no PSD, de total esgotamento da credibilidade do governo e das políticas que tem seguido e do crescente afastamento de importantes barões do PSD relativamente a este governo. Basta atentar no que ele diz sobre a posição perante a Europa, sobre Durão Barroso e sobre o governo (e implicitamente sobre Passos Coelho).
Parece que já há muita gente a achar que é preciso saltar do barco, porque o naufrágio completo da política da austeridade na UE e em Portugal parece cada vez mais claramente visivel.

2. Extratos da entrevista, a propósito do famigerado relatório do FMI e das mais recentes declarações do primeiro ministro:
...
Como é que é humanamente possível despedir 50 ou 100 mil pessoas em Portugal?
Se chegarmos a esse ponto (despedir essas pessoas porque não há dinheiro), então se chegarmos a esse ponto temos que ir á Europa a sério, e deixarmos de ser bons alunos e passarmos a ser antes reclamantes.
Se isso acontecer, temos que deixar de ser bons alunos. Ser bons alunos pode ter vantagens, mas tem uma desvantagem enorme: passam a olhar para nós como conformistas.
...
Perante isto (despedir ou não cumprir com a troika) não devemos optar pela primeira opção, mas sim confrontar os lideres europeus com o falhanço das ideias e políticas deles.
Na UE, somos irmãos deles. É assim que tratam dos irmãos? É a angustia de descobrirmos que estamos ligados a uns cavalheiros e a uns Estados que têm por nós uma consideração nula.
...
Como é que isso é possível? Aumentar 100 mil familias ao desemprego? Não podemos. O risco pior que corremos é pôr mais essas 100 mil familias no desemprego, não é não cumprir com a troika.
...
(Temos que) rejeitar aquilo que o Dr Durão Barroso cinicamente anda a dizer, quando vem a Portugal, de que os Governos é que querem fazer isso (a austeridade), que não é uma imposição deles (UE). Como se ele, coitadinho, possa lavar as mãos, como Poncio Pilatos, de tudo aquilo que a Europa nos anda a fazer hoje em dia: é uma indecencia política e uma falta de honestidade. É totalmente uma falta de respeito para com o país. Não é crível, verdade ou sério dizê-lo. Há coisas que não são entendíveis!.
Este momento histórico também serve para outra coisa: perceber como se comportam algumas pessoas.
...
O governo é totalmente omisso na visão estratégica. Politica e moralmente, o governo é obrigado a dizer-nos qual o rumo e a estratégia que pensa para o país. O governo tem que ter uma estratégia nacional. E não tem. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Histórias de Natal

1. O ministro da defesa não foi visitar os tropas em missão fora de Portugal, quebrando uma tradição. É claro que isso é um incómodo e uma chatice, ainda por cima numa altura em que há tanta coisa natalícia (incluindo as prendas) a tratar por cá.
A desculpa pública dada para isso é um insulto ás tropas e aos portugueses: poupar o dinheiro da viagem. Se fosse verdade que já não há dinheiro para uma viagem de soberania nestas circunstancias, então já não existe país ... E nesse caso poupar-se-ia mais se não se mantivessem tropas no exterior - naquilo que é um dos mais importantes e bem sucedidas atividades das forças armadas portuguesas. Se não há dinheiro para se visitar esses homens e essas mulheres - como se compreende que haja dinheiro para todas as outras viagens do poder?
Na realidade o problema é outro: um governo que não viaja (especialmente para Bruxelas e outras capitais europeias) porque parece não saber como o fazer.
Este ministro já nos tinha sugerido a "fotografia do ano" (ver aqui). Agora esta é sem dúvida a "não viagem do ano".

2. O prmeiro ministro disse no facebook aquilo que não teve coragem para dizer no discurso oficial: "Este não foi o Natal que merecíamos". Espantosa admissão de culpa - mas sem pedido de desculpas.
Recordo que foi este (candidato a primeiro ministro) que pedíu desculpas por apoiar no parlamento umas medidas do anterior governo que eram uma brincadeira comparadas com o que está a acontecer, e desta vez ainda por cima da responsabilidade dos seus próprios erros de governação.
Este é o primeiro ministro que está a dar cabo dos pequenos empresários da restauração com a subida do IVA - mas que lutou denodadamente por não aumentar o IVA do leite achocolatado, antes e agora.

3.  Uma bela história de Natal na SIC: a familia Pereira, 3 jovens músicos e a familia simples e modesta que os lançou do extremo norte de Lanhelas para os grandes centros e orquestras de musica portuguesas, em Lisboa. Uma história exemplar de "upward mobility" com talento e com muitos sacrificios.
Quando se compara esta história com a ascensão profissional e política do primeiro ministro e de outros colegas do governo, sente-se uma perturbante emoção.

BES, Akoya e o radioso sol angolano (mas não só)

Afinal de contas, que confiança é que se pode depositar em Ricardo Espírito Santo e no seu banco (BES) e no seu grupo empresarial?
Ao longo das últimas décadas tem sido o "banqueiro do regime" e dos vários governos, fossem quais fossem as suas cores. Hábil em flutuar no mundo agitado das águas da política, foi sempre flutuando e com isso arrecadando magnificos negócios na área pública ou para-pública. Sempre com a mais respeitosa e respeitável aparência de senador.
Mas as ultimas notícias são verdadeiramente alarmantes. O BES já tinha estado envolvido anteriormente em muitos casos dúbios na área para pública (lembram-se daqueles tais sobreiros?, por exemplo). Mas agora está bem claro que
- o banqueiro depositou ilegalmente capitais no estrangeiro, que agora repatriou e de que pagou as multas e coimas que foram precisas para se livrar de ações penais (ver aqui, noticia do Expresso on line). Isso só foi conhecido em consequência das investigações sobre a Akoya e o banqueiro apenas retrocedeu em face de ter sido aberta a investigação do caso Monte Branco. Falta saber quantos mais casos é que o banco, ou porventura uma pouca conhecida sociedade de consultadoria do grupo, ajudou a expatriar ilegalmente capitais através da mesma sociedade suíça com quem afinal parece que as ligações do BES & Cª são muito mais profundas e eloquentes do que se conhecia.
- o envolvimento da Akoya e do BES com esse tal "empresário angolano" Madaleno, Familia & Ca, através do Sol (e da Cofina) é agora manifesto e público (ver aqui, notícia do Púbico on line), assim como é público o interesse dessas entidades sobre a dita privatização da RTP, "the next big thing" em negócios á custa do erário público - ou seja, o banqueiro tem trabalhado bem e adubado cuidadosamente o terreno para mais um grande negócio para-publico á custa do poder da altura (será que sem contrapartidas?).
Esta última noticia no fundo mostra uma relação clara (porventura menos direta mas não menos eloquente) entre o grupo ES e os tais suiços da Akoya, através desses Madalenos, pontas de lança do BES em Angola.
Que um dos banqueiros mais importantes do país esteja assim "atascado" neste mar de lama (não) é surpreendente, mas seguramente é arrepiante.
Uma pergunta óbvia: pode uma pessoa nessas circunstancias continuar a ter licença do Banco de Portugal quanto a idoneidade pessoal para gerir um banco - ainda por cima um dos mais importantes do país?
É manifesta o cuidado e a reserva com que alguma comunicação social evita falar destes casos. Porquê?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

TAP: um grande problema

1. Apesar do spin que o governo procura fazer nos media, a verdade é que o desfecho do processo de privatização da TAP é um fiasco e uma trapalhada. A realidade foi mais forte que o voluntarismo de privatizar "custe o que custar" a contraciclo da conjuntura.
Um fiasco porque não conseguiu vender a empresa, apesar das expectativas anteriormente criadas.
Uma trapalhada porque se fica com a sensação que o governo tentou evitar o falhanço da operação a dois tempos: num primeiro tempo agarrando-se á única proposta que tinha para mostrar que a operação não era um fiasco, e agora num segundo tempo, e perante a pressão de alguma opinião pública, tira o tapete ao grupo colombiano, na realidade com medo de assumir as responsabilidades de entregar a empresa ao candidato comprador e do que poderia acontecer, quer sob o ponto de vista financeiro como, acima de tudo, empresarial.
(Se o que candidato comprador está a dizer a verdade, o argumento anunciado de falta de garantias, etc, parece uma trapalhada dentro da trapalhada - espera-se que isso se esclareça).

2. Com esta decisão, o governo ficou com uma batata muito quente nas mãos. Já se percebeu que assegurar o funcionamento da empresa nos próximos meses vai exigir recursos financeiros significativos e degradar o valor da empresa.

3. Muito do discurso contra a privatização da TAP é pura treta e justifica-se por puras razões ideológicas e de oportunismo político. A empresa é tudo menos uma "jóia da coroa" ou um "recurso estratégico" do país. Na realidade é (e será) uma colossal máquina de queimar dinheiro, com brutais necessidades de investimento a curto prazo e grandes buracos previsíveis nas próximas contas de resultados.
A ideia que Portugal precisa de uma empresa de bandeira é muito difícil de aceitar. Veja-se o caso da Ibéria (em Espanha). A vulnerabilidade das empresas de bandeira à negociação sindical é mais do que óbvia.
Turismo? As low cost são hoje em dia muito mais importantes para isso do que a TAP. Brasil e PALOPs? Haja movimento rentável (e há) e não deixará de existir oferta - porventura até com melhores preços para os consumidores.

4. A verdade é que infelizmente a TAP vale muito pouco - ou nada. Essa é a lamentável realidade.
Não deixa de ser sintomática a falta de interesse do mercado pela operação. O governo precisa de rápidamente voltar ao processo de venda - ou corre o risco da batata quente lhe rebentar nas mãos e ver-se mesmo na situação delicada de poder ter que vir a liquidar a empresa.

5. A solução mais interessante é que a TAP fosse parar ás mãos de um bom operador, que trouxesse investimento e acima de tudo qualificação para as operações da empresa. Digamos que uma Lufthansa ou semelhante seria uma solução desse tipo. Este argumento (recursos financeiros, "expertise" e lideres na tecnologia, com conhecimento avançado no setor) foi muitas vezes invocado (e bem) por este governo, no seu inicio, para justificar o seu programa agressivo de privatizações - mas progressivamente foi esquecendo a cartilha á medida que ia privatizando como conseguia sem conseguir aqueles objetivos.

6. Infelizmente há uma coisa que anos e anos a viajar me ensinaram: a anedota de "take another plane" tinha, e continua a ter, infelizmente, muito de verdade.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Ministro Gaspar vs. estado social

O ministro Gaspar diz (uma vez mais) que “Não é possível financiar funções do Estado que a sociedade não está disposta a pagar” (ver aqui).
Certamente que há limites para tudo e o orçamento de estado não é um poço sem fundo. Essa não é a questão.
Mas parece haver um consenso na sociedade portuguesa: os portugueses querem o estado social que andam a construir á décadas, mesmo compreendendo que há limites - o dinheiro em condições normais pode chegar para as prestações sociais, se não existir o desemprego atual, se a reestruturação dos custos do estado for feita e acima de tudo se a economia não estiver no continuado clima recessivo em que se encontra.
A questão é outra: os portugueses não aceitam uma economia como ela está e não podem aceitar que o dimensionamento do estado social seja feito em referencia a esta situação anómala.
Não são os portugueses que querem demais do estado. O ministro é que não é capaz de responder aos desafios da sociedade.
Os erros de Gaspar & Ca. já levaram o país a uma espiral deflacionária e a uma colossal carga fiscal, que ele próprio considera insuportável. Mas em vez de fazer aquilo que se espera dele - lutar por pôr a economia a crescer - limita-se a chorar e a atirar a culpa para os portugueses que não lhe equillibraram as contas como o modelo previa.
Não é na situação depressiva e calamitosa da economia portuguesa (em parte da responsabilidade das políticas governamentais no ultimo ano) e da política europeia na zona euro (responsabilidade coletiva dos países europeus, especialmente dos países liderantes) que se pode discutir o modelo social do estado, algo que é para décadas e não para amanhã e depois.
As farpas que o ministro gosta de lançar aos portugueses, e que disso parece fazer gala, não são "dizer a verdade". São antes uma confissão pública da incapacidade técnica e política deste ministro.

Circula por aí uma história: este ano não há presépio. Vieram dois reis magos (Balatzar e Melchior) que construíram o presépio. Depois veio o terceiro - Gaspar - que levou tudo, e ficamos sem presépio.
Parece que é isso que está a acontecer.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Uma colossal crise da couve

1. Acabo de ver o programa “Quadratura do Circulo”. Espantoso como se chegou a uma situação de unanimidade dos três protagonistas do programa na avaliação da crise governamental, e como todos estão de acordo que este governo chegou ao fim e não tem qualquer futuro. E todos parecem estar mesmo muito preocupados com a dificuldade em encontrar alternativas governativas no atual contexto político, social e económico. A situação parece ser mesmo desesperada. As trapalhadas das ultimas semanas foram desastres sucessivos em cima de políticas desastrosas.
A necessidade do combate em Bruxelas e o reconhecimento de que o memorando da troika perdeu atualidade e precisa de ser renegociado porque deixou de estar adequado ao desastre que entretanto aconteceu em consequência das politicas governamentais deste ultimo ano, são ideias que parecem também ter reunido consenso no referido programa.
Algures na discussão Pacheco Pereira respostou a Lopo Xavier se achava que uma grande e enorme couve podia dar boas e belas maçãs, ou coisa do género, isso acerca da possibilidade de regeneração ou mudança de politicas pelo atual executivo. Como é óbvio, a couve referia-se a Passos Coelho & Cª (Miguel Relvas aí incluído).
A falta de qualidade do pessoal político deste governo é bem patente e conhecida - incluindo o ministro das finanças. A imaturidade política, a superficialidade ideológica e a impreparação técnica criaram uma mistura explosiva.

2.As reportagens do Publico sobre as negociatas da Tecnoforma (aqui e aqui) são importantes por aquilo que revelam sobre o carácter e a (falta de) experiencia profissional de Passos Coelho & Cª, assim como da cultura e dos métodos a que estavam habituados a cultivar. Têm o mérito de expor as contradições e vulnerabilidades da atual liderança do governo.
Em primeiro lugar, sob a capa de um discurso partidário contra o Estado e a favor do privado, sempre a falar do “despesismo” do Estado, afinal de contas essas criaturas dedicavam-se a ganhar dinheiro, ou a ajudar a ganhar dinheiro, e a fazer negócios à custa do Estado e para isso recorriam aos jogos de poder e de influencias nos corredores dos amigos no Estado (e no partido). Os arautos do neoliberalismo fizeram-se na pior escola do governamentalismo.
Em segundo lugar, o mercado que conheciam e dominavam não era o duro mercado da realidade económica e empresarial, mas sim o das negociatas à sombrinha do Estado e do partido, procurando sacar uns dinheiros dos programas de apoio às autarquias através de propostas de ações de formação mais ou menos inúteis. Os grandes defensores do privado afinal fizeram-se num privado pensado para ganhar à custa das fragilidades do sector publico.
Como pode gente desta lidar com a difícil situação política dos tempos que correm? Como se pode esperar que esta gente tenha estofo, carácter, competência e experiencia para liderar e coordenar um governo real em tempos de séria crise?
E não admira que a formação do governo tenha sido o seu primeiro grande desastre: a sua forma (estrutura) e muitas das pessoas (incluindo o ministro das finanças) espelham a incompetência técnica e política de uma liderança sem experiencia séria de política nacional e internacional. Não bastam boas intenções nem sucesso no controlo da máquina partidária.
A colossal falta de qualidade da atual geração de políticos (incluindo também muitos do PS) é uma das grandes tragédias e desafios do Portugal contemporâneo.

3. E se os relatórios das tais ações de formação, assinados pelo atual primeiro ministro, tiverem “massajado” os números para sacar mais umas guitas ao Estado - como a reportagem do Publico sugere que aconteceu? Que autoridade pode ter um tal primeiro ministro para pedir honestidade e rigor aos contribuintes portugueses, mesmo que recorra a indignados discursos de virgem enganada? E perante estas denuncias, e os testemunhos identificados, pode o Ministério Público ficar indiferente?

4. Foi preciso uma voz estranhamente livre como Helena Roseta para despoletar a investigação do jornal sobre aquilo que era um segredo de Polichinelo e sempre se ouviu sussurrar nas conversas de café. Isso diz muito sobre o Portugal de hoje e sobre o jornalismo de hoje. Ou terão sido também umas contas que precisavam de ser ajustadas entre a liderança do executivo e o jornal?

5. O Presidente da República está também ele metido até ao pescoço numa situação em que tem responsabilidades, e que agora terá provavelmente que resolver com mais do que mensagens subliminares ou recados pelos jornalistas ou pelo facebook. É pena que entretanto tenha alienado a confiança de uma boa parte dos portugueses com o seu comportamento político nos últimos anos.

6. O discurso da irresponsabilidade fiscal dos anteriores governos, em que o primeiro ministro se refugia constantemente para tentar ignorar que também assinou o memorando da troika e que depois prometeu o que prometeu na campanha eleitoral, é uma prova pungente da sua falta de responsabilidade e de clarividência política, numa altura em que já nem Merckel recorre a essa narrativa irresponsável, irrealista e estereotipada. Não admira que até Santana Lopes ache este governo sem futuro. 
Ontem António Costa recordava no referido programa uma genuína e elucidativa “gasparvoice” (um nome inventado pelo Expresso num cartoon de António, quanto compreenda): há poucos anos atrás criticava a irresponsabilidade em Portugal versus a grande responsabilidade do modelo espanhol – como a história é ingrata para esta gente.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A fotografia do ano em Portugal?


Esta será uma das notícias mais interessantes sobre o estado atual da sociedade portuguesa (também aqui)
Pela história conclui-se que
1a. Um dos ministros mais bem penteados deste governo afinal só governa habitualmente de 3ª a 5ªf. De 6ªf a 2ªf trata da sua vida, metendo fim de semana alargado - tratando mesmo da sua vidinha (os negócios do seu escritório de advogado no Porto) às 6ªf e 2ªf. Ao mesmo tempo, a politica de austeridade do seu governo apela a mais horas de trabalho, acabar com feriados e pontes e reduzir os salários dos trabalhadores.
1b. Ou será que estava a tratar dos negócios de Estado no seu escritório de advocacia? Nesse caso a promiscuidade entre o público e privado (em especial em algumas sociedades de advocacia) estará a ultrapassar limites inimagináveis.
2. E para isso não se hesita em repetidamente estacionar em cima do passeio, em grosseira transgressão. Ao mesmo tempo que a sanha persecutória do Estado se tem agravado, das multas de transito à pressão do fisco e à redução de beneficios e das facilidades dos cidadãos, para o agente do poder tudo são facilidades.
3. E ainda por cima um cidadão que fotografe tal situação parece ser tomado como uma ameaça à segurança do Estado e de todos nós. Já chegava da promiscuidade bem conhecida e documentada das figuras gradas deste governo com as secretas - mas nesta história vai-se muito para além disso e banaliza-se a proteção discricionária aos agentes do poder.
Claro que o causidico-fotografo-amador lá terá as suas razões muito pessoais (e profissionais!) para pôr em xeque o seu estimado colega. Mas ao faze-lo está a prestar um serviço aos portugueses.
Haverá "cenas dos próximos capítulos"?

sábado, 8 de setembro de 2012

Um assalto às familias, um enorme favor ao grande capital

Tiro o chapéu aos comentário de José Gomes Ferreira no Expresso Online (aqui) acerca do ultimo anuncio do primeiro ministro: estas medidas anunciadas traduzem-se numa manifesta transferencia de riqueza das familias para o grande capital, e não resolvem nenhum problema estrutural da economia portuguesa.
A questão que ele coloca sobre "para onde vão os 7% adicionais de descontos dos trabalhadores?" é mais do que pertinente - e não se consegue perceber (sem mais explicações) como é que por essa via o dinheiro vai parar ao Orçamento de Estado e, por consequencia, resolve os problemas do deficit público.
Nicolau Santos propõe também uma boa análise da situação (aqui) e conclui:

  • O atual colapso da economia portuguesa não é apenas resultado de erros acumulados no passado. Resulta também da orientação económica que tem vindo a ser seguida. As medidas ontem anunciadas insistem no mesmo caminho. É pouco inteligente pensar que os resultados serão diferentes.
A explicação tentada pelo primeiro ministro (afinal o aumento de desemprego não é consequência das políticas de austeridade, mas sim da falta de financiamento às empresas) é chocante pela irresponsabilidade política que demonstra. Afinal a culpa é só dos bancos (onde o Estado aliás tem um papel importante)! Que a procura agregada tenha caído a pique, e com ela as receitas fiscais, e também o investimento, e que o acesso ao financiamento tenha (pelo menos em parte) sido também por isso limitado, é completamente ignorado. O que diz muito sobre a honestidade e/ou competencia do primeiro ministro e do governo, ou então sobre o seu enviesamento ideológico. Há muito que se sabe que políticas de austeridade em climas depressivos criam espirais recessivas - basta reler o que se escreveu sobre as teorias do "trade cycle" nos anos trinta e quarenta do século passado. Quem ignora isso não se pode depois vir a queixar das consequências desastrosas - como as que estamos a sofrer.
As políticas neoliberais e anti-sociais arriscam-se a destruir o Portugal reconstruido nos últimos quarenta  anos. As desculpas da austeridade não passam de uma cobertura de natureza ideologica para a incapacidade política em defender os interesses nacionais no seio da EU.
Já repararam que apesar de tudo a Espanha ainda não pediu resgate nenhum e que as taxas de juro da sua divida soberana estão a baixar? Será muito interessante observar os próximos desenvolvimentos relativamente às políticas de compra de divida publica anunciados pelo BCE - ao fim e ao cabo, a UE e a Espanha sabem que o colapso de Espanha será inevitavelmente o colapso do euro, inclusive para os países do Norte da Europa.
A ideia de que empobrecer as familias é criar condições de sucesso para o sector privado, e daí para o sucesso do país, tem infelizmente batido contra a parede da evidencia empírica (mesmo fora da zona euro: veja-se o que está acontecer no Reino Unido). Mas o fervor ideologico tem razões que a razão desconhece. Quem diria que a direita ultrapassaria a tradicional capacidade de obsessão ideológica do PCP?

Update, 12 setembro:
Há um mes no Pontal anunciava-se com entusiasmo que em 2013 é que ia ser! Duas ou tres semanas depois anuncia-se que afinal para 2013 se antecipa uma recessão (-1%) e aumento de desemprego (16%). Isso não é uma recuperação da economia, é um agravamento do crise.
O anterior candidato a primeiro ministro (e agora primeiro ministro em exercicio) deu um ar do que ia acontecer quando em tempos viabilizou no parlamento uma ténues medidas de austeridade do anterior governo e depois veio pedir desculpa aos portugueses.
Agora anuncia desastrosas e desastradas medidas de austeridade de enorme violencia e depois vai-se queixar para as redes sociais e (mais ou menos) torna a pedir desculpas - uma atitude que não pode deixar de ser sentida por muitos portugueses como um insulto (ou pelo menos uma garotice) . A falta de estatura, pessoal e política, deste primeiro ministro começa a ser assustadora.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Contra moinhos de vento .... marchar!

Esta é uma história que merece atenção e acompanhamento.
Se o empresário Alexandre Alves conseguir realmente arrancar e aguentar o funcionamento das unidades industriais sobre células e paineis solares, será de se lhe tirar o chapéu. Ainda por cima sem apoios do Estado. Que o projeto é muito ambicioso e que o processo tem sido muito atribulado, isso já era conhecido.
Mas os últimos acontecimentos surpreendem e sugerem um nível de manipulação e propaganda nos media, por parte do governo, que arrepia. A noticia primeiro punha o governo, em particular os ministros da economia e dos negócios estrangeiros, como grandes justiceiros contra a grande vigarice empresarial e falsos projetos megalomanos financiados com fundos de apoio. Em tempo de poucas noticias, deu grandes parangonas. Alguém que tinha a coragem de se virar contra os vigaristas - um discurso subliminar que este governo gosta de passar, mas pouco de cumprir: "vão devolver o dinheiro, e com juros e tudo!", proclamaram aos quatro ventos.
Pouco depois vem o AICEP desmentir o governo: afinal tal projeto nem um centimo tinha recebido de apoio!!!. E com isso confirma as declarações anteriores do empresário, e desmente os ministros. Do fio da história tornada publica é facil de perceber que entre AICEP e empresário devem ter existido guerras, e que os atrasos do investimento tiveram ai um papel. A história de que o empresário não entregou os papeis por não confiar (ou porque não os tinha?) é patética. Mas isso não invalida a manifesta tentativa de manipulação da opinião pública contra o empresário.
Por isso valerá a pena acompanhar os próximos capítulos. Se contra ventos e marés, estes investimentos ambiciosos vierem a acontecer - o empresário fica redimido de passados menos brilhantes (lembram-se da FNAC?). Quem dificilmente pode ficar bem na fotografia será este governo e estes quixotescos ministros que avançaram com toda a garra e com toda a fúria contra moinhos de vento, e disso se vieram  vangloriar para os media. Fica uma dúvida: quem foi o D. Quixote e quem foi o Sancho Pança de serviço? Ou já nem Sanchos por lá existem dignos desse nome?

Update: noticia no Expresso online.

Update 2 (13 agosto 2012) : Perante o "flop" do caso, o poder parece ter arranjado alguém para fazer o frete e tentar uma manobra de distração (ver aqui, aqui e aqui). Para isso recorreu a Zita Seabra, uma dos casos chocantes de futilidade e de falta de coerência na intervenção política das últimas décadas. Que Zita Seabra se preste alegremente a isso, apenas confirma a sua falta de espessura.

sábado, 21 de julho de 2012

O "estranho" (?) caso da divida soberana francesa e do FEEF


Há poucos dias um blog americano publicava o gráfico seguinte como "chart of the day" sob um titulo Look At What Francois Hollande Has Done To French Borrowing Costs, relativo à surpreendente queda das taxas de juro da divida francesa depois da eleição do novo presidente. Na realidade esperava-se exactamente o contrário (ver o nosso post anterior sobre este tema)


Ontem o Jornal de Negócios online anunciava que 
  • o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), um dos mecanismos que empresta a Portugal, financiou-se a taxas negativas numa emissão de dívida de curto prazo, à semelhança do que tem acontecido em países como Alemanha e França".
e que
  • O fundo está a beneficiar da mesma procura por parte dos investidores de que têm beneficiado os países do centro e norte da Europa. Apesar da rendibilidade negativa, a procura superou em três vezes o montante colocado.
Que as taxas de França tenham este comportamento é um rombo na "teoria da austeridade" - na realidade é exatamente o contrário inverso do previsto pela teoria. Afinal, e sem as tais medidas drásticas de austeridade, a defesa de uma política diferente não fez disparar as taxas de juro da divida soberana francesa.
Que o FEEF se financie ao mesmo nivel de taxas que a Alemanha e a França é elucidativo da viablidade e oportunidade do eurobonds e coisas semelhantes: os países europeus, incluindo Espanha, Itália, e, e claro, Portugal, podiam estar a beneficiar de baixas taxas de juro através de financiamento indireto por instrumentos financeiros do tipo eurobonds (que uma vez Barroso e a Comissão Europeia tentaram fazer vingar, mas depressa esqueceu perante a pressão alemã). Poderiam com isso evitar deficits públicos tão elevados e terem condições mais propicias para uma retoma do crescimento. As condições para os reajustamentos seriam muito mais fáceis e os sacrificios teriam outros dividendos e outras expectativas de sucesso futuro. Como as taxas de juro francesas parecem mostrar, esta facilidade de financiamento da UE não é uma dádiva ou favor alemão, como a ortodoxia do poder alemão gosta de apregoar. A realidade é muito mais complicada do que isso e muito mais favoravel à Alemanha do que se apregoa.
Ambos os factos anteriores mostram algo em comum: a falta de "safe heavens" suficientes para satisfazer aplicações financeiras seguras (de muito baixo risco). A falta desses refúgios para os investidores tem sido muito referida (recordo Soros, por exemplo). A prática está a mostrar isso. O facto da UE não mostrar conseguir tirar partido disso, em nome de uma teoria inviavel da austeridade e penalização da europa meridional, poderá ainda um dia vir a ser considerado criminoso (pelo menos no sentido moral e politico).




Update, 24 Julho: Gavyn Davies no blog do FT, "Bond yields and disaster risk premia" (figura acima) discute o comportamento recente da divida soberana e a surpreendente tendencia para juros quase nulos, devido à crescente incorporação do prémio de risco de desastre nos juros da dívida soberana
  • the perceived likelihood of an economic disaster (defined as a drop of 10 per cent or more in real GDP) has risen markedly since 2008, after many decades in which the risk of such an event had disappeared from investors’ minds. The reappearance of disaster risk increases the probability of a left tail event in economic growth and reduces the valuation of the equity market.
Como se vê pela figura, por países, há um número significativo de países (da OCDE) a pertencerem ao "The Zero Club", mas
  • Again, the stark difference between Italy and Spain on the one hand, and all other countrieson the other hand, is immediately apparent. Where default risk is effectively nil, as it is in economies with their own central banks, yields are homing in on zero throughout the curve
O caso do Japão será mesmo muito surpreendente: a economia mais endividada do mundo (ou pelo menos da OCDE, ver nosso post anterior Trends among OECD countries: debt, deficit, growth, manufacturing sobre esse assunto) tem um custo quase nulo de divida soberana neste momento!

Update, 25 Julho: No blog Daily Chart do The Economist aparece um interessante gráfico sobre a evolução a longo prazo da taxa de juro das obrigações a dez anos (desde 1860, USA, Alemanha, Itália, Espanha) e que mostra uma apreciável volatilidade a longo prazo, para além de que níveis muito baixos por um longo período de tempo também não são novidade (pelo menos para os USA).

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O problema das lideranças e das entrelinhas.

Seria de esperar? Provavelmente. Houve logo quem tenha dito que o acordo da ultima cimeira parecia interessante, mas o problema iam ser depois as entrelinhas dos contratos.
Por isso a súbita recuperação (para pior) das taxas soberanas de Espanha e Itália não surpreendem muito quando se vem a saber que afinal o financiamento directo do sistema bancário pode ficar dependente de garantias soberanas - ou seja, continua a vingar a tese de que as más decisões de bancos alemães têm agora que ser salvas com garantias (logo responsabilidades pela divida) soberanas da Espanha e da Itália (ver artigo no WSJ e notícia no FT).
Depois de ter permitido á banca alemã salvar muito dinheiro no "haircut" final da divida grega através de manobras calculadas no tempo, agora vemos renascer outra vez o mesmo processo: tentar garantir a divida da banca (privada) pelos meios da política pública no contexto europeu.
Pode-se não gostar, e achar isso obsceno (como na realidade nós achamos). Mas essa parece ser a realidade da politica europeia de momento. Mas será uma fatalidade? Os exemplos anteriores sugerem que não necessariamente, e que a pressão da europa meridional pode ter alguma força.
Infelizmente Portugal parece estranho a essa dinamica. Pode-se argumentar que é um tacticismo seguro: somos demasiado pequenos, temos que aguardar o momento para dar a estocada depois de outros forçarem o caminho, coisa que nós não conseguimos fazer.
Mas a nossa leitura é diferente: temos um problema de liderança a nível nacional e a nível europeu. 
Há pouco Pacheco Pereira formulava uma pergunta que muitas começam a equacionar: e se for impossível que esta política de austeridade definida pelo memorando com a troika funcione? (ou seja, que nas circunstancias atuais a política esteja simplesmente errada). Como se sabe muita gente acha isso (e parece que o nosso próprio presidente também), e não têm dúvidas sobre o desastre que está a ser criado por essas políticas.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Os problemas e as soluções

Um modelo simples ajuda a organizar ideias. Com base num post muito recente de Krugman, sistematiza-se a seguir as questões envolvidas na crise atual.

A eurozona debate-se com três niveis de problemas:
1. Um primeiro problema ao nível da solvabilidade do sistema bancário
2. Depois, um problema ao nível da dívida soberana
3. E depois um problema mais profundo de falta de competitividade criado pela fuga de capitais entre 2000 e 2007 (dos países meridionais para a Alemanha, em especial)

e que implicam um programa de respostas também com vários níveis:

1. um processo credível de resgate do sistema bancário e de união bancária, 
2. uma intervenção que permita o normal financiamento da dívida soberana junto dos mercados (firewall, bazooka, eurobonds, projet bonds, ... chame-se o que quiser, mas que passará sempre por algumas formulas de mutualização da divida dentro do espaço da eurozona) 
3. um alto nivel de inflação na Alemanha, para que a Europa meridional não tenha necessidade de uma deflação quase impossivel de aguentar sem graves perturbações (sem isso será difícil uma politica de crescimento que crie condições para os países do sul saírem da crise - mas será também muito difícil o consenso para tal necessário com que os países do dito "norte").
(Atualização, 11 Julho: para uma aplicação do "modelo" ao caso espanhol, ver este post de Krugman)
(Atualização, 12 Julho: um modelo alternativo, mas semelhante: post em Vox)

Várias análises sugerem que as medidas da última cimeira serão insuficientes para estabilizar os mercados. Ver por exemplo, as análises de Gavyn Davies no FT (More questions than answers after the summit) ou de Paolo Manasse (A spread-fixing scheme: Monti's pyrrhic victory?) e de Paul de Grawve (Why the EU summit decisions may destabilise government bond markets) no Vox. As últimas noticias não são animadoras e parecem indicar que os mercados começam a pressentir essas dificuldades e voltam a pressionar, passada a fase inicial de satisfação. As noticias dos media hoje mostram novamente níveis insuportáveis de taxas de juros para a divida soberana espanhola a 10 anos, parecendo confirmar as análises anteriores (segundo artigo em El Pais):
 
Harold James (historiador na Universidade de Princeton e no Instituto Europeu de Florença) faz uma reflexão sobre as questões de liderança na crise atual (The crisis of summer) e conclui:
  • In the past, it was war, immense dislocation, and suffering that could weld nations. Is Europe’s current crisis severe and dislocating enough to generate an analogous effect? The more Europe suffers, the more its people will correctly perceive an incrementalist agenda for reform as nothing more than an exercise in futility
Atualização, 25 julho 2012: Charles Wyplosz, "End of game? Don’t bet on it" no blog Vox mais ou menos desmonta a situação da crise na eurozona em moldes algo semelhantes:
  • Moody’s decision to put the German public debt (already above 80% of GDP) on a negative watch is a healthy reminder that the EFSF/ESM route is leading nowhere good.
  • The simple truth has been known all along ... The crisis will not end until the ECB acts as lender in last resort. It can do it on the cheap by either partially guaranteeing all Eurozone public debts or by setting a cap on their interest rates ... . This will bring the speculative phase of the crisis to a temporary end, leaving room for the other required steps.
  • Private bondholders too will be hurt for having purchased what they saw as safe assets. This is a step that all governments want to avoid, which is understandable but futile. The more they wait, the deeper will be the haircuts and the larger the eventual losses.
  • After all, the ECB can rescue the Eurozone, but it cannot repair it – only governments can do 
    that. ... The really good news is that, at long last, the euro has started to depreciate. Since there is no room left for an expansionary monetary policy and since most governments cannot use fiscal policy in a countercyclical way – just letting the automatic multipliers act remains a dream – the only possible boost to stop economic recession from spreading is a rise in exports. A weak euro is in Europe’s interest.
(Itálicos da nossa responsabilidade)

Problemas no "bloco oriental" da EU


A politica de austeridade continua a fazer a vitimas na EU: depois de Portugal, Irlanda, Espanha, Chipre, Grécia, com a Itália a meio caminho, a Eslovaquia também na calha, parece que um caso que tem passado mais despercebido se está a tornar num caso grave, não só economico, mas acima de tudo político: a Roménia.
O que também é grave, é que o que se está a passar na Roménia tem fortes parecenças com as perigosas alterações estruturais do tecido constitucional e político em curso na vizinha Hungria.
Krugman publicou (4 Julho) no seu blog uma carta que é um apelo e um testemunho importante: "Guest Post: Romania Unravels the Rule of Law", por Kim Lane Scheppele, da Universidade de Princeton:
  • Now it’s Romania’s turn to worry those of us who care about constitutionalism, democracy and the rule of law. A political crisis has gripped Romania as its left-leaning prime minister, Victor Ponta, slashes and burns his way through constitutional institutions in an effort to eliminate his political competition.
Estes problemas têm estado em segundo plano de preocupações, numa EU onde as preocupações com a crise da eurozona dominam todas as atenções. Mas podem ser mau augurio para uma deriva não democrática e para uma divergencia politica da zona "oriental" da EU.


(Figura: deficit governamental da Roménia e Hungria, % PIB. Fonte: Eurostat)
(Foto: janela do histórico hotel Gellert, Budapest, em frente ao Danubio, Março 2007)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O "dia seguinte" à Grécia : Espanha


O "day after" das eleições gregas é especialmente bem documentado pelo "spread" da divida publica espanhola relativamante à alemã:

O El Pais (em "Las dudas sobre la solvencia de España se agudizan a pesar del resultado en Grecia") comenta:
  • Lejos de suponer un bálsamo, los 100.000 millones de euros solicitados por el Gobierno español para los bancos añaden gasolina a un incendio sin extinguir
e recorda o dramatismo da situação:


Paul Krugman comenta também a situação num post no blog no NYT:
  • The reasons aren’t hard to see: we have a maybe coalition that received a minority of the votes, pursuing a strategy almost guaranteed to fail, with parties ranging from radical to full-on fascist waiting in the wings. But what was the market expecting?
O governo espanhol parece desesperadamente esperançado numa solução vinda de Bruxelas e persiste (muito para além dos limites da persistencia de Socrates e do anterior governo portugues) em recusar um bail out total.
Ninguém sabe o que daí pode resultar - provavelmente nada, mas não é seguro. Mas já não é a primeira vez que lhe vale a pena bater com um murro na mesa e desafiar as posições de Berlim e Bruxelas, numa altura em que começa a ser claro o alinhamento com a Itália (vejam-se as preocupantes declarações de Monti, hoje, no Jornal de Negócios online), França, e porventura mesmo com o Reino Unido. E com a Grécia. As dinamicas do poder dentro da UE parecem estar em rápida alteração.
E Portugal? Orgulhosamente só dentro da europa meridional ... 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Mercassos, depois de Merkozy?

O Jornal de Negócios diz, sobre a ultima cimeira da UE em Bruxelas, que
  • "Alguns falaram durante imenso tempo e outros em apenas alguns minutos”, declarou Hollande, citado pelo “The New York Times”, referindo-se aos restantes 26 chefes de Estado e de governo que estiveram presentes.
Não era preciso citar o NYT: bastava ter visto a conferencia de imprensa de Holland nos canais de lingua francesa. 
Parece que o primeiro ministro português foi dos que mais falou. Nas declarações posteriores para a imprensa voltou com o discurso da ortodoxia germanica, continuando a ignorar os problemas estruturais dos mecanismos do euro, e a negar a necessidade de formas de mutualização da divida.
A reiterada recusa dos eurobonds é especialmente negativa: ao não ser capaz de assumir algum protagonismo em Bruxelas e procurar alianças estratégicas com outros países do sul da Europa, estará a condenar a economia portuguesa a uma experiencia desastrosa que provavelmente ficará para a historia da economia como um desastre potencialmente evitável, associado a alterações da posição geoestrategica da Alemanha reunificada.
No DN, Soromenho Marques comenta com uma veemência menos habitual:
  • No jantar do Conselho Europeu de quarta-feira, Passos Coelho - contrariando Monti, Hollande, Rajoy, Juncker, o FMI e a OCDE, entre muitos outros líderes e instituições - apoiou Angela Merkel contra as euro-obrigações. O escândalo racional da chanceler alemã é, assim, apoiado pelo mistério irracional do comportamento do primeiro-ministro português. A lógica da subserviência tem na decência, o seu limite moral, e no interesse nacional, o seu absoluto limite político. Passos Coelho está a rasgar todos os limites. Ele não se pode enganar no "P" ao serviço do qual se encontra. Ele foi eleito para servir Portugal e os portugueses. Não para se comportar como se o nosso retângulo fosse a província mais ocidental da Prússia.
Martin Wolf, no FT, fala precisamente da necessidade de ação contestária na eurozona:
  • Yet solutions may require a degree of political and economic radicalism beyond the member countries.
Hoje a Comissão anuncia mais um ano para a regularização do deficit público em Espanha, ao mesmo tempo que um Barroso surpreendentemente triunfalista fala de uma união bancária, com fundo de garantia, que uma vez mais pode facilitar muito a situação espanhola. Ou seja, o atrevimento e o bater do pé de Rajoy está a dar resultados, em especial quando de algum modo aparece associado a Holland. 

Mas Martin Wolf fala também da novidade da situação:
  • I do not know what the best or most likely way forward can be. But one must be found. The fragility of sovereign debt in the eurozone is potentially lethal, since it can push governments into unmanageable crises. Governments that would have been solvent if they had remained outside the eurozone are so no longer. Countries risk defaults of their governments and banks, together. This is likely to prove intolerable.
  • eurozone sovereigns are exposed to risks that sovereigns with floating exchange rates and central banks are not. Sovereign debt of eurozone countries seem to be far more fragile than that of countries with their own central banks. This issue is a relatively new one, so far as I know. But it is extremely important.
  • A freeze on liquidity may drive a solvent sovereign into default: we are then in the world of multiple equilibria. Thus a sovereign that could perfectly well avoid default if it had market confidence is, in the absence of a central bank, vulnerable to a run. The bonds of governments that lack their own central banks are exposed to an extra risk, in exactly the same way that the liabilities of banks without lenders of last resort are also exposed to risks that banks with lenders of last resort do not face.
Nos comentários ao texto de Wolf sente-se a preocupação no ar:
  • Frightening indeed - in earlier times the solution to this dilemma would have led to war. It still of course may lead to revolution .....which I suppose is 'less bad'!
(Itálicos da nossa responsabilidade)
Atualização: Silva Lopes, citado pelo Jornal de Negócios:
  • o tratado orçamental aprovado para os países da zona euro é uma "ideia sinistra" e vai ser "um desastre completo.
  • Aliás, tenho dúvidas que a própria União Europeia possa persistir durante muitos anos se não mudar as regras", afirmou também ao considerar que "querer resolver os problemas da UE só com austeridade não vai ser possível".

domingo, 20 de maio de 2012

O (grande) problema do clube


Parecem começar a emergir alguns sinais de que afinal uma saída da crise pode acontecer por outras vias que não pelas políticas irresponsáveis da chamada (pelos alemães e seguidores) "política responsável de dívida e deficit publico" dos países da eurozona, em especial da chamada periferia da eurozona. Pode muito bem estar a acontecer que as eleições gregos sejam um ponto de viragem: no fundo os gregos querem continuar no euro, mas não aceitam continuar a sofrer os efeitos das políticas depressivas de austeridade a longo prazo que lhes querem impor. E começa a ouvir-se que afinal pode haver maneira de conciliar as duas coisas e tornar os reajustamentos mais "socialmente responsáveis" e menos destruidores da sociedade e da economia. O meu palpite é que os eurobonds, ou instrumentos semelhantes de mutualização parcial de dívida na eurozona estarão de volta, na sequencia das eleições francesas, gregas e irlandesas.
Será muito interessante ver o resultado do referendo irlandês, em conjunto com o resultado das eleições gregas (primeira e segunda "volta"). E as evoluções das opiniões públicas de Espanha e da Itália nos próximos meses. Mas o que parece ser verdade é que se instalou realmente algum pânico em Berlim e Bruxelas quando se começou a perceber que as mensagens neo liberais dos tecnocratas financeiros estão a fermentar uma revolta nas urnas da europa meridional, e não só, e que afinal os gregos são mesmo capazes de quere bater o pé (e mesmo com a porta). Mesmo os partidos gregos pró-euro anunciam que pretendem renegociar as condições.
A intervenção recente de Durão Barroso começa a soar a patético: se a Grécia quer ficar no euro, tem que obedecer às regras do clube. Os gregos parecem estar a responder que se o clube quer que Grécia continue afiliada, então o clube tem que tratar a Grécia de outra maneira, mais de acordo com as políticas de governação do clube (que tem sido ignoradas) e com os objetivos de solidariedade do clube (também esquecidos).
Michael Pettis, um espanhol da Peking University’s Guanghua School of Management, e Senior Associate at the Carnegie Endowment for International Peace, faz uma boa discussão da posição espanhola, e conclui que (no cenário das políticas prevalecentes), a Espanha terá inevitavelmente que abandonar o euro por progressiva pressão da opinião pública. A leitura da newsletter, Europe's Depressing Prospects, recomenda-se. Embora se dirija ao caso da Espanha, o paralelismo com a Itália e Portugal é obvio. 
Pettis faz uma interessante análise da posição alemã, que será muito menos airosa do que parece e do que se pretende fazer crer:
  • Germany has a potentially huge debt problem on its balance sheet. As a consequence of its consumption-repressing policies during the decade before the crisis, Germany’s domestic savings rate was forced up to much higher than it otherwise would have been and Germany has had to export the excess capital. Not surprisingly, given European monetary dynamics, this capital has been exported largely to the rest of Europe in order to fund the current account deficits of peripheral Europe that corresponded to the surpluses Germany so badly needed to grow. 
  • It did this not by accumulating euro reserves, which it could not do anyway, but rather by accumulating loans to peripheral Europe through the banking system. As a result of all of these loans, Germany is rightly terrified that a wave of defaults in Europe will cause its own banking system to require a state bailout if it is not to collapse, and so it does not want to cut taxes and reduce savings because it believes (wrongly) that austerity will make it easier to protect its creditworthiness. 
  • But German’s anti-consumption policies are leading it towards a debt problem in the same way that similar US policies in the late 1920s created an American debt crisis during the next decade.
  • By refusing to take steps that seem on the surface to undermine its creditworthiness, Berlin will only ensure the debt moratorium that will probably demolish its creditworthiness anyway. 
  • I think Berlin is betting that if they can prolong the crisis long enough, while pretending that the problem is one of liquidity, not solvency, they can recapitalize the German (and other European) banks to the point where they eventually are able to recognize the obvious and take the losses.
Também a análise dos (inevitáveis) mecanismos de espiral recessiva das políticas de austeridade parece bastante clara nesta newsletter. Em particular a inevitabilidade de um desemprego insustentavel a longo prazo
  • unemployment must remain very high for many years so that wages either decline, or rise by less than inflation and relative productivity growth. This is pretty straightforward. 
A responsabilidade da saída da crise é de todo o clube, mas as implicações parecem ser insuportaveis para alguns membros do clube, ainda por cima com responsabilidades na crise:
  • The responsible thing to do is to acknowledge that the euro is indefensible and that Germany’s refusal to share the adjustment burden, after it absorbed most of the benefits of the mismanaged monetary position it imposed on the rest of Europe, means that Spain will be forced to take on far more than its share of the cost. 
As assimetria da poupança privada dentro do espaço intra comunitário e especialmente da eurozona, assim como da balança de comércio externo e da produtividade do trabalho são consequências de disfuncionalidades dos mecanismos da EU e do euro, que obrigam o clube a repensar-se. 
Pettis defende que a melhor opção para a Espanha é sair do euro, mesmo que isso seja inevitavelmente doloroso. Mesmo assim seria melhor do que ficar amarrado ao euro, à rigidez da eurozona (o tal clube de Durão Barroso) e a políticas irresponsáveis (as tais regras do clube de Durão Barroso).
É isto que é mesmo muito preocupante e um sinal que não se pode continuar a ignorar: depois de tantos esforços e sucessos na criação e implementação do sonho da Europa (UE), vozes responsáveis defendem que é melhor abandonar o clube e o sonho, tudo porque o clube parece estar a transformar-se num instrumento de liquidação do sul da europa pelo norte, e em especial por uma Alemanha reunificada, para quem o interesse do clube parece estar a desvanecer-se, ou mesmo a perverter-se. E nessas condições ficar no clube será (para a Espanha, como para Portugal ou Itália)  um suicidio assistido a prazo.

(Itálicos da nossa responsabilidade)

(Adição: por falar em clubes - uma foto notavel de atualidade, no inicio do post)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Grexit or UExit?

Apesar de algo equivoco, o recente editorial do FT sobre a crise europeia e da Grécia, Euro’s last turn before the Grexit, tem alguns pontos relevantes:
  • Only in the context of a euro-wide relaxation of budget targets – which has become a live possibility in remarkably little time – can a modification of Athens’ programme be envisaged. Even that, however, is unlikely to gain strong political backing from Greeks, and may in any case come too late.
  • If the common currency disintegrates, it will be because monetary union and national responsibility for banks are an unsustainable combination. Policy makers understand this now.
  • If the eurozone blanched at pushing Greece out the door – and despite the tough talk, many leaders will hesitate – the only way it could avoid it would be by saving Greece’s banking system from collapse even if the sovereign defaulted.
Entretanto, James Galbraith (da UT at Austin) comentava numa interessante entrevista:
  • the pretense had to be given to the German electorate that this was assistance to Greece in return for Greek sacrifices. The only thing that was real about that was the sacrifices. Those were palpable, they provided a justification for the policy, but there was no assistance to Greece associated with this.
Mais do que a incapacidade grega para implementar as reformas (apesar de tudo, foram feitos passos enormes de austeridade pelos gregos), é a incapacidade da UE em propor políticas razoáveis à Grecia (e outros!) que se está a revelar desastrosa. Cinco anos de programa e o desastre parece não ter fim. Quem se pode admirar dos gregos estarem fartos da incapacidade de Bruxelas e de Berlim?
Este parece ser um momento de potencial viragem: ou o colapso do euro (e da UE) ou alguém capaz de reconhecer que é o momento da mutualização da divida e das políticas fiscais comuns, com programas de coesão para a periferia. Um Europa federal. (Tal como a Alemanha federal ... ).

(Atualização, 21 de maio, editorial do The Economist, onde também se fala de "Eirexit, Porxit, Spaxit and Ixit":
  • The Greek election is in effect a referendum on whether the country will stay in the euro. It is not completely without hope. A new Greek coalition which vowed to stick to the rescue deal would in fact gain some help from the rest of Europe. At the same time, with the promise of a common banking backstop and some form of Eurobonds, the euro would at last start to look as if it could survive and the dangers of contagion would fall away.
  • The financial re-engineering of Europe is a prerequisite for the euro to survive. Greece is bringing forward that moment of truth. And yet politicians, particularly in Germany, have still to accept the logic, let alone explain it to voters. The prospect of a Greek exit means they must begin to do so—and fast.)
(Itálicos da nossa responsabilidade)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Stiglitiz: a austeridade como crime

O último post de Joseph Stiglitz, prémio Nobel de economia, no Project Syndicate, é um gritante apelo aos lideres europeus para cessarem uma política "criminosa" que está a destruir a maior economia do mundo e o capital humano da sua juventude, logo a destruir parte do capital humano da próxima geração europeia:
  • So many economies are vulnerable to natural disasters – earthquakes, floods, typhoons, hurricanes, tsunamis – that adding a man-made disaster is all the more tragic. But that is what Europe is doing. Indeed, its leaders’ willful ignorance of the lessons of the past is criminal.
  • The pain that Europe, especially its poor and young, is suffering is unnecessary. Fortunately, there is an alternative. But delay in grasping it will be very costly, and Europe is running out of time. 
  • If the euro survives, it will come at the price of high unemployment and enormous suffering, especially in the crisis countries. And the crisis itself almost surely will spread.
O espectro de uma união financeira incompleta e sem credor de ultimo recurso continua a limitar as opções
  • Europe as a whole is not in bad fiscal shape; its debt-to-GDP ratio compares favorably with that of the United States. If each US state were totally responsible for its own budget, including paying all unemployment benefits, America, too, would be in fiscal crisis. The lesson is obvious: the whole is more than the sum of its parts. If Europe – particularly the European Central Bank – were to borrow, and re-lend the proceeds, the costs of servicing Europe’s debt would fall, creating room for the kinds of expenditure that would promote growth 
No mesmo dia, Merckel reafirmou a sua politica de austeridade para os países do sul da europa, como a única alternativa possível.

(Itálicos da nossa responsabilidade)

(Adição: de um post do Free Exchange, no The Economist:
  • The austerity is there. If it isn't working out as many expected, that's either because what they expected was unreasonable, or because the central bank isn't doing its part.)