terça-feira, 7 de julho de 2015

Grécia (II): as cinzas de Merkel


Não serei o primeiro a dizer que o "não" grego foi uma pesada derrota pessoal de Merkel. Alguns falam mesmo da maior derrota da sua carreira - o que provavelmente é verdade. Prova disso poderá ser a capa do ultimo número da Der Spiegel. A saída da Grécia e um eventual colapso a prazo do euro atirará provavelmente Merkel para o caixote do lixo da História e poderá ser  do fim político de uma lider "acidental", ao fim e ao cabo.
Vale a pena ler a peça do Der Spiegel: aqui, na versão em inglês, "As cinzas de Merkel. Como Merkel perdeu a Grécia e a Europa".
O título fala por si e diz muito da apreensão subliminar que porventura começa a minar as elites alemãs: as dúvidas sobre a clarividência política de Merckel e a sua liderança (ou não liderança). 
  • The Greek crisis required leadership and a plan, but Merkel was unwilling to provide either. Although she likes power, when push comes to shove, she doesn't know what to do with it. And now she faces the wreckage of her European policy. How could things have come to this?
  • So she hid behind the troika, behind the hated technocrats, thereby accelerating the rise of Syriza. Indeed, Tsipras is, to a certain extent, a product of Merkel's vacillating leadership style
  • Merkel wants a Europe of nation-states and not a deeply integrated Europe. She was concerned about Juncker running as the lead conservative candidate in 2014 European elections, worried -- correctly -- that it could result in a reduction of power for European heads of state and government. Furthermore, she doesn't trust the European Parliament because majorities aren't as dependable as they are in the Bundestag back home in Berlin.
  • The chancellor says none of this openly because it would contradict the CDU's founding principle. She can speak like Kohl, but she breaks with what he stood for. Left behind is a confused EU that doesn't know what the most powerful woman on the Continent actually wants.

A parte do artigo sobre o papel da McKinsey e da "matemática" (contabilidade, as folhas de excel) na emergência das politicas de austeridade e sua adoção pelos neo liberais é notavel e mesmo de antologia:
  • In a sense, the International Monetary Fund is the McKinsey of global politics 
Mostra como a tecnocracia assumiu a política e o vazio da política europeia e dos seus líderes (incluindo o patético Barroso), e como o pensamento único da tecnocracia tem destruido o sentido político e social da Europa.
Um texto notável de jornalismo e análise política. Escrito e publicado pelo mais influente meio de comunicalão alemão, note-se. 
Interessante as opiniões atribuidas ao ministro alemão das finanças ... 

Grécia (I): a incomensurabilidade



1. Gráfico muito elucidativo publicado pelo Royal Bank of Scotland: apesar de tudo os gregos reduziram substancialmente a despesa pública, muito mais do que os outros países - e com isso precipitaram uma colossal recessão interna, resultado da receita de austeridade da UE e IMF. Vale a pena recordar aqui o gráfico incluido em post anterior (aqui), do pib per capita ppp (preços constantes).

2. O grande "Não" dos gregos deixou muita gente apoplética, e não só os políticos europeus. Na SIC Notícias, o comentador de serviço, José Gomes Ferreira, não conseguia disfarçar uma incomodidade colossal. Em filosofia, chama-se a isso incomensurabilidade: claro que para ele é inconcebível o que os gregos fizeram - são uns burros inconscientes que não percebem nada de economia, pura e dura. Wittgenstein diria que são dois "language games" completamente diferentes. Incomensuraveis. 

3. Simon Wren-Lewis, professor de economia na Universidade de Oxford, mantem um dos blogs (mainly macro) mais influentes sobre macroeconomia, com enfase na europa. Cito de um dos post mais recentes, sobre os ideólogos da eurozona:
  • One of the charges frequently made against opponents of austerity in the Eurozone is that we are really seeking the failure of the whole Euro project. The opposite is nearer the truth. The problem for the Euro project is that it has become captured by an economic ideology, and austerity is that ideology’s principle weapon. A self-confident and mature Eurozone would be able to tolerate diversity, rather than trying to crush any dissent. A Eurozone captured by an ideology will insist there is but one path, and that the imperative of austerity is too important to accommodate democratic wishes. Pursuing that ideology has brought the Eurozone to the brink, where it is prepared to force out one of its uncooperative members. Critics of austerity are not trying to destroy to Eurozone, but save it from the grip of this self-destructive ideology.

Um dos pensamentos mais perturbadores sobre a crise na UE é precisamente a transformação da política em ideologia, com o argumento da inevitabilidade da solução da tecnocracia, com base na sua qualidade "científica" e técnica.
Parece estarmos a voltar onde já estivemos, e com resultados dramáticos. O comunismo argumentava que era uma "teoria científica" que promovia a tecnologia por "métodos científicos" e que organizava a sociedade de acordo com os mesmos métodos. O nazismo praticava a segregação racial e a eugenia seletiva com base em argumentos do mesmo tipo, e tentava mesmo proclamar a sua vocação imperial numa base (pseudo) cultural e filosófica. (Heidegger caíu estrondosamente nessas esparrela, que alimentou). Por isso ver renascer este tipo de pensamento, ainda por cima centrado em terras germanicas (mas não só) é muito perturbador.

4. Ontem apareceu uma entrevista muito interessante do francês Thomas Picketty (aqui), ilustrada com uma fotografia de 1954, precisamente com o ministro das finanças grego a assinar o perdão de METADE da divida alemã (foto reproduzida abaixo). Mas a tese de Picketty é ainda mais interessante:

  • Germany is the country that has never repaid its debts. It has no standing to lecture other nations.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Grécia e Portugal: o amuo e as queix(inh)as do PM

No Financial Times (aqui):
  • Mr Tsipras reiterated his belief that the creditors’ plan would stifle growth and ignores the democratic mandate he received in January’s elections. ...
  • But Mr Tsipras received little support in the room, officials said. Particularly tough were the prime ministers of other countries who have gone through their own bailout programmes: Ireland, Portugal and Spain. ...
  • Pedro Passos Coelho, the Portuguese prime minister, was particularly pointed, officials said, noting that his country’s bailout programme was never debated at an EU summit and chastising Mr Tsipras for repeatedly insisting it be discussed among heads of state. “It cannot be done in a way different from every other country,” Mr Passos Coelho said.

A atitude de Passos Coelho é reveladora, mas é também um elogio e um cumprimento público à ousadia política dos gregos: o homem está amuado e preocupado porque os gregos conseguiram levar a questão a uma cimeira politica da UE, coisa que Portugal nunca ousou ou conseguiu. Este amuo mostra muita coisa. Aliás complementado pelas queixas (por exemplo, aqui no DN) que fez sobre a flexibilidade adicional que a Grecia já conseguiu da UE: implicitamente está a reconhecer que podia ter conseguido melhores condições para Portugal e não o fez, ou porque não quiz ou porque não foi capaz. 
Claro que ele conhece perfeitamente o carater recessivo e destruidor das medidas de austeridade propostas, especialmente numa situação como a grega. Mas prefere tentar safar a sua própria pele politica: como é que os gregos se atrevem a protestar e a dizer não?
Seja qual for o desfecho desta crise, uma coisa é certa: a Europa mudou. Provavelmente para pior. Infelizmente - e certamente sem necessidade. 
Recorde-se a realidade dos últimos anos. O gráfico seguinte mostra a evolução do PIB per capita at PPP (purchasing power parity, ou seja, a preços constantes). O gráfico foi recentemente publicado num artigo de Martin Wolf no FT (aqui). Este gráfico conta a história toda, nua e fria: nós perdemos cerca de 10% e a recuperação do ultimo ano nada altera de essencial. E veja-se o tombo colossal da Grécia: mais de 25%!!


Um grito de revolta: Jurgen Habermas, a Europa e a Grécia


Jurgen Habermas é um dos filósofos europeus contemporâneos mais importante. Professor na Universidade de Frankfurt, tem refletido com profundidade sobre o significado do projeto da União Europeia, que tem defendido. Por isso o seu artigo de opinião publicado no diário francês Le Monde é tão importante - por ser escrito por uma das mentes mais esclarecidas do pensamento europeu, um defensor e teorizador da transnacionalização da democracia e da constitucionalização da lei internacional, e um democrata alemão.
Este seu grito de revolta sobre o escandalo da política europeia com a Grécia faz eco do que pensam muitos europeus das gerações fundadoras da Europa. Nos comentários que tenho visto e ouvido nos programas de comentário televisivo, é patente o desalento de gente como Pacheco Pereira, Ferreira Leite ou Bagão Felix perante o descalabro das elites e líderes políticos da União. Eu partilho desse desalento e dessa revolta.
Tomei por isso a liberdade de traduzir o texto de Hebermas para português, a partir da versão francesa.
Num momento em que me sinto inquieto pelo futuro da Europa e do projeto social e solidário que representava e em que acreditei.



A escandalosa política grega da Europa
Jurgen Habermas


Traduzido do alemão para francês por Olivier Mannoni
Traduzido do francês para português por Eduardo Beira
Publicado em Le Monde, 24 junho 2015 (aqui), disponível na integra aqui

Os resultados das eleições na Grécia exprimem a escolha de uma nação cuja grande maioria se colocou numa posição defensiva face a uma miséria social tão humilhante como avassaladora, provocada por uma política de austeridade imposta ao país pelo exterior. O voto propriamente dito não permite qualquer discussão: a população rejeita a continuação de uma política de que sofreu o falhanço brutal na sua própria carne. Seguro desta legitimação democrática, o governo grego tenta provocar uma mudança de política na eurozona. Ao fazê-lo, colidiu com os representantes de dezoito outros governos, que justificam a sua recusa referindo-se friamente ao seu próprio mandato democrático.
Recordamo-nos desses primeiros encontros em que os noviços arrogantes, levados pela exaltação do seu triunfo, entregavam-se a um torneio ridículo com as gentes bem instaladas, que reagiam tanto com as mimicas paternalistas de bom tom como com uma espécie de desdém repetitivo: cada uma das duas partes tratava de gozar a legitimidade dada pelo seu “povo” respetivo, e repetiam essa antífona como papagaios.
Foi ao descobrir até que ponto a reflexão que faziam na altura, e que se baseava no quadro do Estado nação, era de um cómico involuntário, que toda a opinião pública europeia  compreendeu aquilo que realmente faltava: uma perspetiva que permitisse a formação de uma vontade política comum dos cidadãos, que fosse capaz de pôr, no centro da Europa, objetivos políticos que tivessem consequências reais. Mas o véu que encobria este déficit institucional não está ainda realmente rasgado.


Um novo recomeço
A eleição grega introduziu grãos de areia nos mecanismos de Bruxelas: neste caso foram os próprios cidadãos que decidiram da necessidade urgente de propor uma política europeia alternativa. É verdade que noutros lugares são os representantes dos governos que tomam este tipo de decisões entre si, segundo os métodos tecnocráticos, e evitam incomodar as suas próprias opiniões públicas nacionais com assuntos que as possam inquietar.
Se as negociações iniciadas em Bruxelas com vista a um acordo não tiverem sucesso, é sem dúvida acima de tudo porque as duas partes não atribuem a esterilidade dos debates ao vício de construção nos procedimentos e nas instituições, mas sim ao mau comportamento dos outros parceiros. É verdade que a questão de fundo é a obstinação com que se agarram e uma política de austeridade que não só merece a crítica generalizada dos meios científicos internacionais como teve consequências bárbaras na Grécia, onde se mostrou um fracasso manifesto.
No conflito de base está o facto de uma parte pretender provocar uma mudança desta política enquanto que a outra recusa obstinadamente envolver-se em qualquer espécie de negociação politica, o que revela uma assimetria profunda.
É preciso compreender bem aquilo que esta recusa tem de chocante, e mesmo de escandaloso. O compromisso falha, mas não por causa de alguns milhares de milhões de euros a mais ou a menos, nem mesmo por causa desta ou daquela cláusula do caderno de encargos, mas unicamente por causa de uma reivindicação: os gregos pretendem que se permita que a sua economia e a sua população explorada por élites corruptas possa recomeçar de novo com uma redução do seu passivo - ou com uma medida equivalente, por exemplo com uma moratória sobre a dívida, cuja duração dependeria do crescimento. Em vez disso, os credores continuam a reclamar o reconhecimento de dívidas que a economia grega jamais permitirá pagar.


A reivindicação duma redução da divida não é suficiente
Note-se bem ninguém contesta que uma redução parcial da dívida é inevitável, a curto ou longo prazo. Os credores continuam, com total conhecimento de causa, a reclamar o reconhecimento formal de um passivo cujo peso é impossível de aguentar. Ainda há pouco tempo, persistiam mesmo em defender a reivindicação literalmente fantasmagórica de um excedente primário de mais de 4%. É verdade que baixou depois para o limite de 1%, que continua irrealista; mas até aqui é impossível encontrar um acordo - de que depende o destino da União europeia - porque os credores exigem que se mantenha uma ficção.
É claro que os “países credores” têm razões políticas para se agarrarem a esta ficção que permite adiar, a curto prazo, uma decisão desagradável. Temem, por exemplo, um efeito de dominó noutros “países devedores”; e Angela Merkel não está segura da sua própria maioria no Bundestag. Mas quando se dirige uma politica errada, é-se forçado a fazer a sua revisão, de uma maneira ou outra, quando damos conta que ela é contra prudecente.  
Por outro lado não se pode continuar a culpar apenas um das duas partes pelo insucesso. Não sei dizer se a tática do governo grego se baseia sobre uma estratégia bem refletida nem julgar o que resulta, na sua atitude, de condicionantes políticas, ou da inexperiência ou incompetência do pessoal responsável pelos dossiers. Não tenho informação suficiente sobre as práticas usuais ou as estruturas sociais que se opõem às reformas possíveis.
Em qualquer caso, o que é manifesto é que os gregos não construíram um Estado que funcione. Mas tais circunstâncias difíceis não podem explicar porque é que o governo grego complica singularmente o trabalho daqueles que tentam, mesmo entre os seus simpatizantes, discernir uma linha no seu comportamento errático. Não se vê nenhuma tentativa racional para formar coligações; interrogamo-nos se os nacionalistas de esquerda não se agarram, apesar de tudo, a uma representação algo etnocêntrica de solidariedade, se apenas querem continuar na zona euro por motivos resultantes de simples esperteza - ou se a sua perspetiva ultrapassa mesmo o quadro do Estado nação.
A revindicação de um perdão parcial das dívidas, que constitui a base contínua das suas negociações, em qualquer caso não é suficiente para que a outra parte tenha pelo menos confiança no facto do novo governo grego não ser como os precedentes, mas que irá agir com mais energia e de maneira mais responsável que os governos clientelistas que substituiu.


Mistura tóxica
Alexis Tsipras e o seu partido Syriza podiam ter desenvolvido um programa de reformas governamentais de esquerda e “ridicularisar” assim os seus parceiros de negociação em Bruxelas e Berlim. Amartya Sen comparou a política de austeridade imposta pelo governo alemão a um medicamento contendo uma mistura tóxica de antibióticos e de remédio para os ratos. O governo de esquerda teve perfeitamente a possibilidade de iniciar uma decomposição keynesiana da mistura de Merckel, no sentido em que isso era entendido pelo prémio Nobel da economia, e de rejeitar sistematicamente todas as exigências neoliberais; mas ao mesmo tempo precisava de tornar credível a intenção de se lançar numa melhor repartição dos encargos, de combater a corrupção e a fraude fiscal, etc.   
Em vez disso, acantonou-se no seu papel de moralizador - um jogo de culpas. Tendo em conta as circunstâncias, isso permitiu ao governo alemão afastar, com um simples gesto de enfado, e com a força da Nova Alemanha, a queixa justificada da Grécia sobre o comportamento astucioso, mas indigno, adotado pelo governo Kohl no princípio dos anos 90.
O fraco desempenho do governo grego não altera o escândalo: os homens políticos de Bruxelas e Berlim recusam-se a endossar o seu papel de políticos quando se encontram com os seus colegas atenienses. Mantêm as aparências, mas quando falam, falam exclusivamente no seu papel económico, no seu papel de credores. Faz sentido que se transformem assim em zombies: trata-se de dar a aparência de um processo político a um procedimento tardio de declaração de insolvabilidade de um Estado, susceptível de ser objeto de de um procedimento de direito privado nos tribunais. Porque tendo feito isso, será mais fácil negar uma responsabilidade politica. A imprensa diverte-se com o facto de se ter dado outro nome à “troika” - e, na realidade, trata-se de uma espécie de golpe de magia.
Mas o que isso exprime é o desejo legítimo de ver, apesar de tudo, surgir a face dos homens políticos por trás das máscaras dos financeiros. Porque este é o único papel em que podem vir a ter que prestar contas por um desastre que se traduz por uma grande numero de vidas estragadas, miséria social e desespero.


Intransigência
Para conduzir as suas duvidosas operações de socorro, Angela Merkel fez entrar o FMI no barco. Este organismo é competente para as disfunções do sistema financeiro internacional; enquanto terapeuta, assegura a estabilidade e atua no interesse geral dos investidores, particularmente dos investidores institucionais. Enquanto membro da “troika”, as instituições europeias fizeram causa comum com esse ator, embora os políticos, na função desse título, se desdobrem no papel de agentes a operar no respeito estrito pelas regras e a quem não é possível pedir contas.
Esta dissolução da política na conformidade com o mercado talvez se possa explicar pela insolência com que os representantes do governo alemão, que são, sem excepção, pessoas de alta moralidade, negam a sua corresponsabilidade política nas consequências sociais devastadoras que aceitaram enquanto lideres de opinião no seio do conselho europeu, quando impuseram o programa das economias neoliberais.
O escândalo no escândalo é a intransigência com que o governo alemão assume o seu papel de líder. A Alemanha deve a impulsão que lhe permitiu a ascensão económica, de que vive ainda hoje em dia, à generosidade das nações credoras que, aquando do acordo de Londres, em 1954, riscaram com um traço da caneta cerca de metade das suas dívidas.
Dito isto, o essencial não é o embaraço moral, mas o núcleo político: as elites políticas da Europa não têm mais o direito de se esconderam por trás dos seus eleitores e de se esquivarem às alternativas perante as quais somos postos por uma comunidade monetária politicamente inacabada. São os cidadãos, não os banqueiros, que devem ter a última palavra sobre as questões relativas ao destino europeu.
O adormecimento pós democrático da opinião pública também se deve ao facto da imprensa ter caído num jornalismo de enquadramento que avança de mão dada com a classe política e que desconfia do bem estar dos seus clientes.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Onze questões sobre o novo e o velho BES

1. E se Miguel Sousa Tavares tiver razão e tiver sido feito um empolamento artificial dos prejuizos do BES, por razões políticas e para que a nova administração venha depois a poder fazer flores, à custa dos antigos acionistas? E se o empolamento for da ordem dos mil milhões de euros, ou mais? Recorde-se que nem todos os acionistas do BES eram membros da familia Espirito Santo. Nem sequer a maioria ... E muitos eram pequenos acionistas. E não sei se todos os membros da familia podem ser tratados por igual nestas circunstancias.
2. Como se compreende que altos dirigentes do BES, alguns dos quais responsáveis por estarem diretamente envolvidos ao longo de muitos anos na venda camuflada de produtos financeiros do GES ao balcões do BES, apareçam agora na administração do banco novo?
3. Sem culpa formada, sem tribunais, parece que os anteriores dirigentes de empresas do BES, assim como revisores de contas, assim como os seus familiares diretos, ficam com as suas contas no BES "confiscadas" - algo que, quanto eu me recorde, nem sequer nas nacionalizações gonçalvistas da banca aconteceu. Quanto tenha visto anunciado, essas contas ficam bloqueadas até á dissolução do velho BES, depois dos anos (porventura décadas), como garantia contra eventuais ilicitos em que porventura tenham estado envolvidos. Note-se que o universo das pessoas afetadas parece ser muito maior do que a administração do antigo BES e respetivos órgãos de fiscalização.
4. Será que antigos dirigentes do BES que agora aparecem como dirigentes do novo banco também ficaram com as suas contas no BES atascadas (ou confiscadas) no banco mau, assim como os seus familiares diretos?
5. Afinal ninguém disse nada, mas parece que houve realmente um princípio de "corrida ao banco", na sexta feira passada e que foram muitos os depositantes a levantar ou transferir os seus ativos. Parece que se está a tentar esconder isso, mas parece que nos aproximamos perigosamente de um meltdown bancário na sexta feira passada, tal como tínhamos antecipados no último post, escrito precisamente durante a sexta feira passada (ver BES: um colapso e um desastre "colossais").
6. Sabe-se que a PT levantou á ultima da hora muitos milhões de euros do BES. Obra do espírito santo? Milagres destes são suspeitos ...
7. Os atuais gestores do novo banco são gestores públicos ou privados? O dinheiro é público, e sem o dinheiro público a operação teria sido impossível. Se são gestores de coisas públicas, porque não estão sujeitos ao ordenamento jurídico - e vencimentos - dos gestores públicos? Na realidade, o governo não teve outra solução senão nacionalizar o banco e usar dinheiros públicos para salvar os mercados. Uma vez mais, não me choca no plano ideológico - mas é a contradição total com a ideologia neoliberal do mercado privado.
8. Não é preciso ser bruxo para se anteciparem longas, longuíssimas, batalhas judiciais à volta quer do antigo BES como do novo banco, tal parece ser a inconsistência da construção jurídica da operação. Em consequência das incertezas que essa litigância vai criar, a venda do novo banco poderá conhecer grandes atrasos que por sua vez farão desmoronar a tal mentira de que isto não tem qualquer custo para os contribuintes ou para o Estado.
9. Depois disto, o tal fundo de salvação dos bancos fica sem dinheiro e ainda por cima a dever uma "colossal pipa de massa" ao Estado. E se acontecer algum precalço no Banif, ou noutro banco?
10.  E a Tranquilidade? É credível que, tal como BES, não existam aí muitas operações de engenharia financeira desenhada para financiar subrepticiamente os buracos das contas do universo empresarial do GES?
11. No final de sexta feira o mercado ainda avaliava o BES em cerca de 1.5 milhões de euros. A operação feita destruiu de forma quase completa e irreversível esse valor dos acionistas. Mais ano, menos ano, o Estado vai ter que acabar por indemnizar quem foi agora espoliado. Como os casos das anteriores nacionalizações mostraram. Não há Estado de direito que aguenta tropelias destas, mesmo que camufladas. Paulo Portas a defender publicamente que não havia outra solução senão nacionalizar o banco e espoliar os acionistas?

PS. Notável intervenção de um comentador (Marco Silva) no noticiário de hoje á noite na RTP2. Vale a penas ouvir.

sábado, 2 de agosto de 2014

BES: um colapso e um desastre "colossais"

1. Quando Vitor Bento e os outros novos dirigentes entraram para a gestão do BES como administradores cooptados (logo não eleitos pelos acionistas em Assembleia Geral), pela mão e inspiração do regulador, as ações do BES estavam cotadas a cerca de 0.45 euros. Quando escrevo isto, as acções do BES estão a transaccionar próximo dos 0.1 euros. Uma quebra brutal de mais de 75% em menos de um mês de gestão. Um colapso "colossal" e espantoso, em especial quando comparado com as evoluções de outros bancos cotados no mesmo período.


Pode-se argumentar que entretanto "apareceram" milhares de milhões de euros de dívida desconhecida e que isso justifica o desastre. Em parte é verdade - mas porventura menos do se pretende fazer crer. O mercado de capitais vive de expectativas futuras, e uma parte do risco do aparecimento desses buracos "colossais" já estava a ser antecipado pelo mercado.
O que está acontecer significa também que os mercados, uma vez mais, não dão cinco tostões nem pela capacidade da gestão de Vitor Bento & Cª para repor valor ao banco, nem pela capacidade do Banco de Portugal para rapidamente limpar a casa.
O resultado parece ser ter que meter dinheiros públicos no BES, porventura com uma cosmética contorcida que permita poder dizer que afinal não é uma privatização. Não me repugna uma nacionalização nas condições em que estamos. Mas que seja um governo de neo liberais, adversários jurados da intervenção do Estado na sociedade, que agora o tenha que fazer, ao revés de tudo o que tinha antes afirmado, diz bem da trapalhada e da falta de coerência deste governo.

2. O WSJ (aqui) diz-nos o que pensam os mercados, mesmo ainda antes do último colapso bolsista do BES:
  • "After saying for a while now that BES has sufficient capital, yesterday the Bank of Portugal said that a capital increase was necessary," Deutsche Bank strategist Jim Reid said.
  • Daragh Quinn, an analyst at Nomura International PLC who still has a buy rating on the bank, wrote in a note to clients that while the losses in BES aren't unprecedented "given the experience of some banks during the recent financial crisis, the manner in which they have been incurred seems unique. Until the details of the capital plan are clear, we don't have enough visibility on the investment case," he added in a note to clients earlier Thursday.
  • The cost of insuring BES debt against default also jumped. It now costs $590,000 a year to insure $10 million of BES debt for five years, $166,000 more than Wednesday's close, according to Markit.

3. Os casos de clientes BES que não estão a receber pontualmente os juros, ou mesmo o capital, devido por aplicações em produtos vendidos nos balcões do GES Alguns casos divulgados pelos media são mesmo muito preocupantes.
Afinal parece que as aplicações dos clientes do BES podem não estar seguras - mesmo tendo o banco criado provisões que teoricamente garantiam a sua satisfação, e depois de toda a gente, do Banco de Portugal ao Presidente da República, o terem andado a prometer. Não me admiraria muito se isto despoletasse uma corrida aos depósitos - um cenário que, a concretizar-se, seria alarmante e de consequências sistémicas.
As desculpas esfarrapadas da administração do Banco, atirando as responsabilidades para o Banco de Portugal, parecem patéticas. E levantam questões éticas gritantes sobre o comportamento empresarial do Banco e da sua administração. Como é que isso se conjuga com as tais preocupações éticas das atividades empresariais, que Vitor Bento alardeava defender acerrimamente? Claro que não se conjuga.

sábado, 19 de julho de 2014

Ainda mais sobre o BES




1. Em meados dos anos 90 conheci de perto o caso de um administrador de uma empresa importante cotada no mercado de capital. Num daqueles almoços de cativação de clientes empresariais relevantes, um quadro de topo do BES conseguiu convencer também esse administrador a fazer uma aplicação pessoal, da ordem de meio milhão de euros, num serviço de gestão discricionária.
Recordo ainda a cara de horror desse administrador quando passados uns tempos descobriu que tinha perdido cerca de 20% do capital investido e que lhe tinham aplicado o seu dinheiro em produtos financeiros ... do próprio GES / BES. Não é por acaso que me tenho lembrado deste caso nas ultimas semanas.

2. Há menos de três meses, o BES publicou e distribuiu o numero 37 do valorBES, a newsletter dos acionistas do BES, relativo ao mês de Maio de 2014, onde se faz uma análise ao exercício de 2013. O editorial é assinado por Ricardo Salgado, acompanhado da sua fotografia e assinatura. O tom laudatório do texto segue a retórica habitual desta literatura, mas algumas passagens soam hoje a uma profunda hipocrisia, escassas dezenas de dias depois de terem sido escritas. Por exemplo:

  • A boa performance do Banco num índice de referencia mundial como é o Dow Jones Sustainability Index comprova que a estratégia de sustentabilidade é um elemento fundamental do modelo de negócio e da missão do Banco, refletindo uma gestão equilibrada e pautada por valores de solidez, rigor e transparência (itálicos da minha responsabilidade).

Noutra passagem fala da "rigorosa disciplina financeira que caracteriza o banco", da "gestão prudente do risco" e reclama com orguho que "em 2013, o BES integrou a lista das 100 empresas mais sustentáveis do mundo".
Se nos recordarmos que os problemas do BES têm origem no GES, cuja administração era largamente liderada pelas mesmas pessoas da família, e que as contas do GES terão vindo a ser friamente falsificadas durante anos (porventura de forma sofisticada e durante mais anos do que se diz), podemos perguntar agora o que é que pode também estar escondido nas contas de várias empresas emblemáticas do universo do GES (inclusivé companhias do sistema financeiro, como companhias de seguros relevantes em Portugal).
O BES colocava aos seus balcões dívida (papel comercial) do GES, cuja administração (só esses???) conheciam perfeitamente o risco associado a esses produtos devido ás contas manipuladas e aldabradas do universo GES, também por eles administrado. Aliás é de perguntar o que é que realmente sabiam sobre isso os quadros de topo do BES e do GES, inclusivé os que em simultaneo têm feito carreira política - por exemplo, o que sabia sobre isso Miguel Frasquilho, deputado, economista de serviço no PSD e lider da AICEP nomeado por este governo? Mas haverá outros ...

3. Sandro Mendonça (do ISCTE) escreveu no Expresso online um texto notável e corajoso, que se recomenda (aqui). No programa Expresso da Meia Noite (na SIC Noticias), Sandro Mendonça teve a coragem de dizer o que poucos têm tido coragem para dizer em público: que Vitor Bento, CEO do BES, continua com vínculo ao Banco de Portugal, o que coloca questões sobre as relações entre regulado e regulador. Parece óbvio que Vitor Bento simplesmente não quer correr o risco de perder esse vinculo, não vá o diabo tece-las. (Mendonça recordou que Vitor Bento recebeu durante anos prémios de desempenho no Banco de Portugal quando nem sequer estava ao serviço do Banco). Questões de ética ...

4. Entretanto o WSJ publicou ontem um artigo (aqui) que complementa bem o texto referido de Sandro Mendonça, e que faz perguntas pertinentes:
  • Troubles at Espírito Santo International SA have rocked markets in southern Europe in recent days, but there were signs as early as 2012 that the Portuguese conglomerate was struggling, raising questions about why regulators didn't intervene earlier.
  • The report included an opinion from auditor KPMG, dated September 2012, which warned that as of June 2012, the €666 million ($900 million) fund had invested about 87% of its value in commercial paper of Espírito Santo entities. The fund was marketed to clients of Banco Espírito Santo. The auditor also warned that given the debt was short term and there wasn't a market price available for it, the value of the investment was calculated based on the issuer's judgment. KPMG issued the same opinion in a report for the year ended December 2012.
  • The Wall Street Journal questioned Bank of Portugal in November on whether clients of Banco Espírito Santo who invested in the fund, called ES Liquidez, were exposed to too much risk, and whether there was a conflict of interest in having a bank market a fund so exposed to debt of the bank's main holding company. A spokesman for the central bank said then the issues weren't "of responsibility of Bank of Portugal," adding the questions should be posed to the market's regulator. He, however, said the central bank was monitoring connections between banks and affiliates closely, and there were rules in place imposing restrictions on loans from banks to those affiliates.
  • The International Monetary Fund, the European Union and the European Central Bank, lenders under Portugal's €78 billion, three-year bailout program that ended in May, also didn't raise any flags about possible problems with Espírito Santo International or the bank.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ainda o BES

1. Que há um buraco nas contas do GES é um facto - recordo o post anterior (aqui). O que ainda não está claro é como é que foi criado, nem qual o seu valor. Mas sabe-se que é um buraco enorme. Um amigo meu sugere que é o resultado de anos a fio de sofisticadas contabilidades criativas para esconder grandes perdas durante muito tempo - muitos anos, e não apenas os últimos anos.

2. Esse meu amigo tem ainda uma teoria, um modelo tentativo para explicar a estranha crise no GES e no BES. O BES angariava fundos de várias origens. Emprestava dinheiro ao BESA em Angola, que estranhamente perdeu o rasto a empréstimos no valor milhares de milhões de euros, algo absolutamente insólito, mesmo que cobertos por garantias do governo angolano. O meu amigo sugere que esses fundos podem ter ido parar ... aos mesmos Espirito Santo ou GES, deixando chorudas comissões pelo caminho, com o objetivo de ajudar a tapar os buracos no Luxemburgo e em Portugal. E o meu amigo recorda a história dos dinheiros que Ricardo Salgado se "esqueceu" de declarar ao fisco, que agora se dizem terem vindo Angola numa teia de comissões e empreiteiros. Mas quero acreditar que esse meu amigo é um exagerado com imaginação a mais.


3. Ontem a nova equipe de gestão entrou ao serviço. Resposta do mercado: desvalorização das acções do BES em mais de 7%. Hoje a nova administração falou (e pouco ou nada disse: paleio vago e óbvio de recuperar a confiança perdida e de "pôr fim à especulação", em vez de clarificar). Resposta do mercado: uma quebra adicional de 15%. Em dois dias da nova gestão, que era dita precisar de entrar urgentemente ao serviço para salvar o BES, o mercado respondeu com mais de 20% de perdas na capitalização bolsista do BES. Elucidativo.

4. O que essa resposta significa é que o mercado não acredita numa gestão de comissários políticos sem experiência de bancos em mercados concorrenciais, nem que as facilitações politicas que pressupõem sejam suficientes para tapar os buracos no BES.

5. O governador do Banco de Portugal vem outra vez dizer que o BES é sólido e que até há quem queira investir no Banco. Uma coisa começa a ser clara: a supervisão do Banco de Portugal falhou completamente em prevenir mais uma crise bancária e já não tem credibilidade para fazer estes anúncios. Afinal de contas estava tudo tão sólido que teve á pressa de coadoptar uma nova administração, tudo sob a pressão da urgência e sem respeito formal pelos acionistas, sem sequer aguardar pela assembleia geral num ambiente de normalidade - uma contradição completa. Já vimos a credibilidade que o mercado deu a esses anúncios.

Atualização (17 julho): excelente artigo de opinião por Sandro Mendonça no Expresso online, (desBESificar o país, aqui).


quinta-feira, 10 de julho de 2014

ES: não olhes para o que fazemos (ou fizemos) ...


A capitalização bolsista do BES era hoje um pouco abaixo de 3000 milhões de euros, após a interrupção das transações em bolsa, depois de fortes quedas recentes da cotação (ver gráfico, obtido no Google Finance). A ESFG controla 25% do capital do BES, que portanto vale cerca de 700 a 800 milhões de euros - ou seja, menos do que a exposição direta conhecida do BES ao grupo GES, que não inclui potenciais impactos do buraco BESA nem o risco indireto do BES aos incumprimentos do GE (como é que o BES será afetado pelas consequencias - incuindo possiveis falencias - de empresas clientes do BES que têm exposição á divida das empresas do universo GES? Informação recente do BES estima que essa componente possa valer cerca de 2000 milhões de euros.). E poderá valer ainda menos quando o mercado retomar as transações das acções.
Ou seja, o valor da "jóia da coroa" da familia, e do GES, não chega sequer para cobrir o risco do BES á divida do GES. No caso do GES querer entregar a sua posição no BES como garantia ou colateral, o valor da sua participação no BES estão longe se serem suficientes, nas condições de mercado a curto prazo. Isto dá uma perspetiva sobre a dimensão do problema, mesmo ignorando que a familia, e o GES, apenas controlam uma parte da ESFG ... Note-se que a familia própriamente dita tem conseguido controlar a gestão do BES através de uma posição de 25%, mas na realidade apenas detém cerca 25% desses tais 25%, graças á conhecida cascata de sociedades do grupo (deterá um pouco mais do que isso, se se anexarem as participações individuais de alguns membros da familia).
Fala-se que o papel (ou divida) do GES em circulação no mercado poderão ser 5 a 6 mil milhões de euros, um numero "colossal" (diria um tal Vitor Gaspar ...). A pergunta é como é que se contruíu esse passivo - uma pergunta que continua sem resposta, mas que certamente se deve a prejuizos continuados de exploração e a negócios ruinosos, sistematicamente escondidos debaixo dos tapetes. O GES diz excluir outras variedades menos conformes de desaparecimento de fundos, mas qual há quem desconfie disso. E ainda vamos ver aparecer a questão das responsabilidades dos auditores.
Durante anos os accionistas principais de um banco de referencia nacional andaram a enganar tudo e todos - ao mesmo tempo que os mesmos protagonistas perseguiam os clientes que não conseguiam esconder do banco as suas dificuldades financeiras - incluindo os pequenos depositantes e credores com dificuldades de tesouraria. O impacto final de tudo isto, inclusivé para além da esfera estritamente financeira, está ainda muito longe de se perceber ....
O BES fez um aumento de capital recente de cerca de mil milhões de euros. Um incumprimento do GES arruinará o efeito do aumento de capital, feito para melhorar os ratios do banco - e novo aumento de capital vai ser necessário a curto prazo. A possibilidade do saneamento do balanço do BES terminar no desaparecimento do banco, por fusão noutro banco, nacional ou internacional, começa a ser inquietante.
E o assunto da nova equipe de gestão é tudo menos reconfortante, por aquilo que significa: mostra que para gerir um BES nestas circunstancias o parece ser importante são as ligações politicas e a capacidade de facilitação e influencia junto do poder politico e da "nomenclatura" no poder, e que são essas capacidades que contam. Isso é especialmente gritante no caso do indigitado presidente da comissão executiva, um gestor sem experiencia de banca, que fez carreira empresarial num monopólio sem concorrencia a sério e que alavancou isso para se tornar politicamente relevante (muitas vezes com teses tecnicamente duvidosas) como ideologo de serviço ao governo e ás teses da austeridade radical. Um investimento que parece que lhe continua a render bons "dividendos".

(Atualizado em 11 de julho)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

E depois das eleições ... um novo xadrez político?

A minha análise dos resultados das ultimas eleições (*), porventura pouco convergente com o que muitos analistas têm dito:
1. O voto de protesto poderá ter sido da ordem dos 20%: crescimento do PS e da CDU, MPT, crescimento de brancos e nulos, e mesmo de outros pequenos partidos, perda de votos da coligação no poder.  Admito que estamos perante um novo xadrêz politico que poderá ser irreversivel - e por isso o quadro conceptual de análise terá que ser diferente.
2. A abstençao terá sido menor do que o costume, mas isso foi escondido pelo aumento da abstenção dita "técnica", que estará entre os 10 e 15%, pelo menos, dos eleitores registados, agravada pela saida de perto de 3% da população (emigração) nos ultimos anos. Como seria de esperar, a redução da abstenção foi canalizada para o voto de protesto.
3. Boas noticias: as hipóteses de governabilidade parecem ter melhorarado. Não é isso que muitos dizem, mas é o que me parece razoavel inferir. Talvez a coisa esteja algo empatada, segundo os resultados destas ultimas eleições, como diz Marcelo - assumindo com isso que ele é que poderia ser a "silver bullet" presidencial que poderia desempatar.  Com base nestes resultados, se estas eleições tivessen sido legislativas (ver aqui) não seria possivel constituir maiorias sólidas. Mas isso ignora que estes resultados abriram as portas a novas soluções que é razoavel antecipar como muito possiveis nas próximas legislativas. Na dinamica de novas eleições legislativas, uma parte dos votos de protesto deverão voltar ao PS - mesmo que o MPT consiga converter-se num movimento politico consistente, o que não é de excluir e é mesmo muito possivel que aconteça.
4. Ao contrário daquilo que o BE e o PC sempre fizeram, nem o MPT nem o Livre parecem ter por vocação o "orgulhosamente sós" que tem caraterizado o comportamento politico do PC e do BE. O facto dos votos do MPT e do Livre não serem neste momento suficientes para uma coligação com maioria absoluta com o PS não significa que não o possam ser nas próximas eleições, até porque a diferença atual para tal é inesperada e surpreendentemente pequena. Visto assim, os resultados destas eleições parecem dizer que:
- o comportamento da direção do PS foi considerada inadequado e insuficiente como protesto reativo e como combate politico contra o governo da coligação e contra as politicas de austeridade sem reforma do estado e da economia
- mas o voto de protesto foi canalizado para novos veiculos partidários, nas franjas atuais do sistema politico e partidário, mas dentro dele, e que em principio sugerem expectativas positivas para a formação de consensos à esquerda. Essa será a grande novidade (finalmente?). Afinal os portugueses parecem sugerir que pretendem consensos partidários, mas dentro da linha de mudança da atitude europeia e da politica de austeridade, e pretendem que esses consensos que materializem nas zonas da esquerda democrática.
5. Tudo indica que o grande perdedor tem sido o CDS, que poderá estar agora reduzido a menos votantes do que o novo MPT, e até talvez mesmo não mais do que o novo Livre - pelo menos enquanto que coligado.
5. Por isso esta nova dinamica poderá vir a ser muito incomoda para o PC ou CDU: apesar de todos reconhecerem que é um dos vitoriosos destas eleições, neste novo cenário o isolacionismo sistemático poderá deixar de render as boas "rendas" que tem rendido de forma sistemática. Curiosa a posição de Jerónimo de Sousa, a reclamar de imediato um lugar em qualquer solução de esquerda, mesmo aceitando que afinal a CDU não a pode conseguir só por si.
5. E o futuro sem futuro do BE parece definido. A ideia que o regresso de Louçã para salvar o BE parece pouco credível - a menos que faça uma pirueta política e se abra a coligações de esquerda e a sujar as mãos na governação. Afinal foi o chumbo do PEC IV e do anterior governo, a aliança suicida do BE com a direita de Portas e Passos Coelho para o derrube de Socrates, que abriu as portas á troika e que acelerou a morte a prazo do BE. Os resultados do BE e do Livre em Lisboa são mesmo muito esclarecedores.
6. MPT e Livre foram as boas noticias destas eleições. Assim saibam sobreviver, para bem da democracia portuguesa. A história do PRD (lembram-se?) pode ser muito edificante e util de ensinamentos ... tanto para Marinho Pinto como para Rui Tavares.

(*) escrito antes de ser conhecida a candidatura de António Costa. A sua eventual liderança do poderá reforçar o "momentum" do PS e assim reduzir um pouco a importancia das novas forças políticas emergentes, mas acima de tudo criaria condições mais favoraveis para consensos á esquerda, envolvendo essas forças.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Gordo, anafado e balofo

Cada vez mais gordo, anafado, balofo, foleiro e vazio de ideais, já todos perceberam que Barroso vai sair da Comissão da UE pela porta mesmo muito pequena do palco europeu. Infelizmente para todos nós, europeus em geral, europeus do sul em especial, e portugueses em particular.
Em Sintra, Barroso apenas terá reforçado a sua mediania provinciana (da "provincia" longinqua de Bruxelas). Pois, afinal a culpa afinal não é nem da UE, nem do euro, nem das politicas estúpidas de austeridade, mas sim dos estados que não resolvem o problema do desemprego. Está tudo dito: afinal foram esses estúpidos (leia-se, os governos de Espanha, Portugal, Grécia, Itália, ...) que criaram desemprego porque foram incompetentes a ... aplicar a austeridade hortodoxa (mais do que hortodoxa, no mais que infeliz caso portugues).
Vale a pena ler o comentário de Paul Krugman (aqui):
  • Sitting in a room listening to EU officials reacting to the European Parliament elections — and it seems to me that they’re deep in denial. Barroso just declared that the euro had nothing to do with the crisis, that it was all failed policies at the national level; a few minutes ago he said that Europe’s real problem is a lack of political will.
Parece que o sonho da fenix renascisda das cinzas (da austeridade) continua na cabeça de responsaveis europeus. Krugman comenta:
  • Sorry, but depression-level slumps didn’t happen in Europe before the coming of the euro. And we know very well what happened: first the creation of the euro encouraged massive capital flows to southern Europe, then the money dried up — and the absence of national currencies meant that the debtor countries had to go through an extremely painful process of deflation. How anyone could deny any role for the currency …
Menos austeridade, mais deficit, mais reforma e mais tempo teriam ditado outros futuros para a europa do sul, embora porventura menos proveitos para a europa do norte:
  • And if there’s one thing Europe has, it’s political will. All across the southern tier, governments have dutifully imposed incredibly harsh austerity in the name of being good Europeans. What should they have done that they haven’t?
  • I guess the notion is that if the Greeks, or the Portuguese, or the Spaniards really, truly committed their all-powerful wills to reform and adjustment, their economies would boom despite deflation and austerity. The possibility that things are so bad — and radicals have been empowered — because the policies are fundamentally misguided just doesn’t seem to be considered.
Em comentário anterior (aqui) Krugman tinha escrito:
  • The European story remains one of deeply destructive economic policies, which have inflicted vast harm — but have not led to unraveling, because the political cohesion of the euro is stronger than people like me realized. The cohesion is a good thing, I guess, but the policies still aren’t working.

ATUALIZAÇÃO (31 de maio de 2014):

Paul Krugman divulgou no seu blog no NYT a apresentação feita na reunião do ECB em Sintra: ver aqui. Não terão sido apenas os comentários de Krugman sobre a UE e Barroso que terão deixado amargos de boca nalguns. Na sua intervenção Krugman pôs acima de tudo em dúvida aquilo a que chama "mysterious doctrine of 2%", ou seja, os fundamentos e a bondade dos numero mágico de 2% como "target" da inflação na zona euro, um dos fundamentos mais importante da política e do mandato do ECB. Krugman recorda os tres argumentos tradcionais a favor, rejeita dois e duvida do terceiro:
  • 1.  ZLB episodes regarded as unlikely at that rate 
  • 2.  DNWR regarded as unlikely to be seriously binding 
  • 3.  Price stability advocates offered a measurement fig leaf 
  • We now know that 1&2 not true. But also good reason to fear a low-inflation trap, so that there is option value to reducing the odds of falling in
ZLB refere-se ao "zero lower bound" caracterisitica da situação de procura agregada insuficiente, associada à "low inflation trap" (como acontece atualmente na Europa e em Portugal) e DNWR é a sigla de" downward nominal wage rigidity", a dificuldade estrutural de reduzir os salários nominais em termos significativos (Portugal é um contra exemplo recente). 
No final Krugman confronta-se explicitamente com as palavras de Draghi, quando este afirma não ver sinais de deflação na zona euro, e fala de um "timidity trap" que está a minar a zona euro.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Apresentação de CONHECIMENTO PESSOAL, de Michael Polanyi

É com especial gosto que anuncio a apresentação pública da minha tradução da principal obra de Michael Polanyi, publicada em 1958 com o título Personal Knowledge. Towards a post critical philosophy. A versão portuguesa é Conhecimento Pessoal, Para uma filosofia pós-crítica, e tem cerca de 450 páginas. Esta é a terceira obra de Michael Polanyi que traduzo, depois de ter publicado A dimensão tácita e O estudo do homem.
A apresentação tem lugar em workshop especializado integrado no congresso ALTEC 2013, uma primeira reunião de um ciclo sobre "Grandes pensadores e pensamentos sobre ciencia, tecnologia e desenvolvimento", próximo dia 28 de Outubro, no edificio da Alfandega do Porto, das 11:00 às 13:00 horas. Para mais informação sobre o programa e o ciclo de encontros, ver aqui.
A tradução desta obra foi uma aventura intelectual e uma descoberta pessoal, um projecto que nos ocupou intensamente durante um ano. Como referi na nota introdutória que escrevi para esta edição,

  • “traduzir um pensador como Polanyi passa por um processo íntimo de partilha de ideais e de vivências, de interiorização (indwelling) dos processos de exploração de ideias e competências associadas”, uma interpelação pessoal, uma “vocação” a que se procurou responder. 
O texto completo dessa nota de introdução pode ser visto aqui.
Esra edição é uma edição académica. Uma edição comercial estará disponível muito brevemente. No entretanto, aqui pode pedir o acesso a capítulos, para fins académicos.

Apesar da sessão estar integrada no ALTEC2013, o acesso a esta sessão é livre (embora sujeita a registo na entrada para a sessão).


domingo, 18 de agosto de 2013

Concorrência: pessoas e setores

O Expresso noticia (aqui) que o novo ministro da economia desconvidou um nome indigitado pelo seu antecessor para presidir á Autoridade da Concorrência. O homem seria irmão de alguém à frente de uma empresa eventuallmente sujeita a atenção especial da Autoridade nos tempos mais próximos. Os mais cáusticos dirão que os interessados na operação estiveram quase a conseguir pôr no lugar alguém potencialmente compreensivo para certos processos complexos de integração empresarial. Outros especularão sobre a limitada base de recrutamento para este tipo de funções, e sobre o que isso pode significar, quer sobre a base de apoio deste governo, quer mesmo sobre as elites da sociedade portuguesa em geral.
Parece que este ministro, e o seu partido, estão muito preocupados com questões de concorrencia e querem mostrar serviço:
  • "Temos a oportunidade para uma melhoria substancial na deteção e atuação eficaz em relação a este tipo de práticas comerciais" de "cumplicidade entre operadores em sectores com concorrência imperfeita ou limitada".
Acontece que essas práticas não são exclusivas de setores como as petroliferas ou telecomunicações. Acontece em quase todos os sectores onde o mercado é controlado por um número muito limitado de operadores como, por exemplo, ... o setor das cervejas. Quem por uma ou por outra razão lidou ou lida de perto com o setor não pode ficar indiferente às estranhas "fronteiras" entre marcas na distribuição, inclusivé inter fronteiras dentro da UE. Práticas de controlo territorial e termos contratuais duvidosos na distribuição não são desconhecidos. A complexa rede de participações sociais entre as empresas internacionais do setor favorece condições para mecanismos discretos e súbtis de controlo indirecto e "top down". A UE tem repetidamente denunciado e multado o setor durante os últimos anos. Por exemplo:
  • The European Commission has fined the Dutch brewers Heineken, Grolsch and Bavaria a total of €273 783 000 for operating a cartel on the beer market in The Netherlands, in clear violation of EC Treaty rules that outlaw restrictive business practices (Article 81). The Commission's decision names the Heineken group, Grolsch and Bavaria, together with the InBev group which also participated in the cartel. Beer consumption is around 80 litres per capita in The Netherlands. Between at least 1996 and 1999, the four brewers held numerous unofficial meetings, during which they coordinated prices and price increases of beer in The Netherlands. InBev received no fines as they provided decisive information about the cartel under the Commission’s leniency programme (aqui).
  • Today the Commission imposed fines totalling € 2.5 million on the two main brewery groups in France. The two groups are being fined for having taken part in an agreement aimed at establishing equilibrium between their integrated beer distribution networks in the away-from-home sector (hotels, restaurants and cafés) France. The agreement was also aimed at limiting the acquisition costs of drinks wholesalers. (aqui)
  • The European Commission welcomes the judgment by the European Court of Justice (Case C-3/06 P) dismissing in its entirety the appeal by Danone against the judgment of the Court of First Instance (CFI) of October 2005 and confirming that repeat offences by companies, even when many years in the past, should be taken into account when setting fines in competition cases. The original case concerned cartels operated on the Belgian beer market between 1993 and 1998. The Court upheld the fine of €42 412 500 as set by the CFI. This means that over 96 % of the Commission's fine on Danone and 97% of the Commission's fines on all cartel participants remain. (aqui)
Claro que as práticas se vão adaptando e mudando com os anos, procurando não se repetirem ostensivamente. Mas os mais cáusticos desconfiarão que meteram a raposa no galinheiro e dirão que as suas teses parecem confirmar-se. Outros dirão que esperam ser surpreendidos - especialmente no setor das cervejas - agora que um "insider" detém o poder.
Outros ainda dirão que isto de olhar para os gestores de grandes empresas como reservas para políticos de mãos limpas pode ter grandes problemas ... políticos.

2. Lembram-se das cervejas Cintra? Só queria atingir dez por cento do mercado nacional, mas ficou pelos 1% e um colapso empresarial ... Mas o empresário tinha grande experiencia e sucesso no setor (no Brasil, não cá ...) - por isso não se invoquem os tradicionais "erros de gestão" dos treinadores de bancada. Mais uma operador no mercado poderia ter significado mais concorrencia e beneficiado os consumidores finais. 
O que é aconteceu? Como se explica o desastre empresarial? Porquê tanto silencio à volta da história, especialmente na imprensa economica? Estou á espera que alguém faça a história crítica e independente do caso (que magnifica proposta para uma tese de doutoramento!...).
Entretanto aquela linda fábrica á margem da principal autoestrada deste país recorda todos os dias a quem por lá passa que nisto de concorrencia, ele há setores e ... setores. Um estranho e incómodo monumento á (falta de) concorrência.

sábado, 3 de agosto de 2013

Empreendedorismo: uma história transmontana



Para quem vai a Bragança e quer almoçar bem, o restaurante O Abel, em Gimonde, é uma das referências a não perder.
Mas o que me interessa aqui é a história da casa, descrita de forma exemplar numa das paredes da sala de entrada. É uma saga de empreendedorismo familiar que dispensa comentários, e que bem poderia constituir um caso de discussão para as minhas aulas, quer de gestão como de inovação.
As palavras falam por si (mesmo que a pontuação não seja uma perfeição, mas que se mantém na transcrição):

  • O restaurante O Abel nasceu a 1 de Abril de 1984, quando o senhor Abel e a sua esposa Clóris decidiram tentar mudar o rumo das suas vidas, naqueles tempos, difíceis. Ele camionista e ela doméstica já com quatro filhos, decidiram arriscar o pouco que tinham num pequeno negócio situado nesta aldeia, inicialmente serviam apenas petiscos, que se tornaram rapidamente famosos pelo seu sabor único, as tripas com feijão servidas na malga eram na altura o petisco mais prezado. Com a clientela a crescer decidiram arriscar noutros pratos, a escolha caiu nas carnes assadas condimentadas com especiais ervas aromáticas existentes na região, e tal como nos petiscos rapidamente se destacaram. Mais clientes eram sinónimo de novos horizontes, e a 1 de abril de 2001 abriram este novo espaço juntamente com os seus filhos, mantendo a essência, a humildade, o trabalho e o amor de uma família transmontana. A 20 de janeiro de 2009 receberam da Câmara Municipal de Bragança um Diploma de Mérito pela contribuição para a fixação económica na área rural do concelho e gastronomia local, pelo seu contributo para a qualidade da oferta gastronómica  e como estímulo à diferenciação positiva na atividade e no setor. Atualmente o Restaurante O Abel continua a ser a casa de ambiente familiar, rodeado pelas belas paisagens do Parque Natural de Montesinho onde pode deliciar-se com as melhores carnes transmontanas grelhadas na brasa.
  • O sucesso deste restaurante deve-se unicamente à dedicação de uma família e seus clientes.

Quatro notas:
1. Gimonde é um dos sítios mais quentes de Portugal, porventura ainda pior do que Mirandela. Mas o restaurante tem ar condicionado.
2. Esqueçam a famosa posta mirandesa. Peçam RODEÃO e depois contem como foi ... (Os agradecimentos ao artista Rodrigues da Fonte, de Bragança, pela sugestão)
3. Localização, pelo Google Maps (nova versão, mais um caso como o que tratei recentemente no meu outro blog (aqui)), vendo-se a zona urbana de Bragança á esquerda e Gimonde á direita. Ao fundo, terras de Espanha.


4. Registe-se a forma original de promover e anunciar bons vinhos transmontanos, a preços convidativos. As minhas recomendações: o mais barato, Montes Ermos, e um do mais caros, Trovisco.


quinta-feira, 4 de julho de 2013

E agora?

1. Até Peter Wise, o correspondente do FT em Lisboa, diz (aqui) que Portugal cumpriu quase todo o programa de consolidação fiscal definido pela troika:
  • Portugal has so far achieved about two-thirds of the fiscal consolidation required under the three-year bailout programme. 
embora reconheça que afinal pioramos e que entramos numa recessão profunda:
  • But the Organisation for Economic Co-operation and Development and other economists forecast that public debt is likely to peak at above 130 per cent national output by 2015, calling into question the sustainability of fiscal consolidation and the prospects of lifting the economy out of a deep recession. 

2. Ouvindo os oráculos europeus, em especial durante os últimos dias, parece ser um constante o argumento (ou ameça?) de que não continuar com o programa da troika deita a perder os sacrifícios de dois anos e os sucessos conseguidos. Só que não se compreende quais são esses sucessos - salvo o ter tentado cumprido acriticamente um programa louco de empobrecimento e desastre social em nome de uma experiência utópica de engenharia económico e social.
O poder europeu parece acima de tudo interessado em salvar a face, garantir que o seu diktat é cumprido (mesmo que os resultados sejam o desastre que se está a ver) e que as aparências de mantêm - e que a crise do euro afinal se vai ignorando e escondendo debaixo do tapete, na esperança de que se vá resolvendo por artes mágicas que dispensem a politica e vontade dos povos europeus.

3. Mas a carta de demissão de Vitor Gaspar acabou de vez com o mito, pelo menos o mito interno. O arquiteto das políticas internas de austeridade “custe o que custar” e o agente de confiança dos mentores europeus dessas políticas disse claramente, e sem margens para dúvidas, que afinal o rei vai nú e que tudo falhou, e que é preciso um novo ciclo. Perante isso a posição de Barroso e dos alemães parece ser, uma vez mais, elogiar os sucessos que o próprio Gaspar desmentiu categoricamente.
Que se veja, o único sucesso portugues foi cumprir acriticamente - e pior, ter agravado em muito o plano inicial de austeridade. Uma análise contrafactual sugere que estaríamos muito melhor no plano económico e financeiro se esse agravamento delirante não tivesse sido feito. Mas foi.

4. O roteiro salvador á nossa frente parece ser assim: aguentar até meados do próximo ano, acabar de cumprir o programa (“custe o que custar”), ficar livre da troika e encontrar a praia salvadora nos braços do BCE e dos mercados. Pelo meio anunciar ao mundo o “sucesso” do programa salvador e agradecer reconhecidos a esmola concedida.
Confesso não entender: cumprir o programa (entendido pela troika como incluindo os cortes adicionais propostos) significará implementar o programa dito ser de “reforma estrutural do estado” que implicará o tal corte dos 4 ou 5 mil milhões de euros, uma verdadeira bomba de recessão adicional que irá agravar ainda mais a espiral recessiva em que nos metemos. As consequências económicas, sociais e financeiras disso são previsíveis, e de certeza não serão boas. A situação vai ainda agravar-se mais com as consequências disso ao longo do resto deste ano e dos próximos anos. O acesso aos mercados, um quase mito hoje em dia, ficará ainda mais comprometido. O poder europeu pode ficar satisfeito, e até mesmo reconhecido, para com o “país cumpridor”, mas os mercados não vão nessa: no fim do programa as notações de rating das agencias internacionais não vão ser muito melhores do que as atuais - se é que não vão ser piores - e nessas condições só os especuladores irão investir na divida portuguesa, e a taxas de juro insustentaveis. Portugal ficará, na melhor das hipóteses, nas margens atribuladas e especulativas dos investidores em divida pública, afastado dos grandes operadores desses mercados (por causa da notação insuficiente de rating).
Não credito que os tais cortes dos 4 ou 5 mil milhões devam ser implementados nestas circunstâncias, nem que existam condições políticas e sociais minimas para isso, no caso de ser tentado. O único argumento é que isso abrirá depois a porta do BCE - embora ninguém saiba exatamente como e com que condições. Que eu compreenda, nada disso está garantido, e pelo meio continuaremos a destruir o país social e económico.

5. Claro que com a crise da coligação tudo fica ainda pior. E a viabilidade do tal roteiro salvador passa de precária a (quase) impossível.
Apesar dos seus custos óbvios, querer adiar ainda mais eleições que possam ser clarificadoras, será agravar ainda mais esses custos e tornar ainda mais problemático o desfecho disto tudo.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

"Quando não temos o carácter para saber qual o caminho, alguém tem de nos o indicar"

1. Um magnifico deputado do PSD emitiu a sua opinião (ver noticia no Jornal de Negócios, aqui):
 “a análise crítica da coisa pública não pode ser só jurídica, tem que ser de ética, republicana e de bom senso. ... Se existe crime ou não, não sei. Mas quando se falha de forma tão estrondosa, há um caminho, o caminho da rua”.
“Falharam, e quem falha sai. ... Eles têm que sair, já deviam ter saído pelo próprio pé. ... Quando não temos o carácter para saber qual o caminho, alguém tem de nos o indicar”.
E ainda mais, quanto a experimentalismos económicos:
- "Quem perde ... porque decidiu fazer apostas baseados em algoritmos que pareciam o jogo da roleta, há mais que justa causa [para despedimento"
Considerações que se aplicam como uma luva ao atual governo, e que se poderiam mesmo considerar como adequadas á celebração do seu segundo aniversário. Perante o colossal falhanço das políticas e dos algoritmos neoliberais da austeridade, na realidade são afirmações muito certeiras. 

2. No entanto a opinião emitida pelo douto deputado não era sobre o governo da atual maioria, e desconfio que subscrevesse a aplicação dos seus doutos juizos a tal, embora a lógica da sua aplicação seja direta e imediata. Não, referia-se antes ao dito caso dos swaps - um caso que cada vez se mostra mais intrigante, e que cada vez mais assume contornos de obscuros ajustes de contas internos no PSD, entre facções rivais, e de propaganda demagógica do governo para tentar fazer passar uma imagem de "limpeza" e rigor que lhe falta em quase tudo.
Na realidade
- não se percebe, nem se explica, porque é que o caso aparece agora, sendo que era bem conhecido do governo desde a sua posse, e foi olimpicamente ignorado (tendo mesmo o risco potencial mais ou menos duplicado neste últimos dois anos).
- não se percebe, nem se explica, porque é que se fez (ou quer fazer) o resgate dos swaps agora, criando agora uma dívida real (quando na realidade era uma divida potencial), em vez de aguardar pelo seu pedido de resgate pelos bancos (o que parece não ter acontecido)
não se percebe, nem se explica, porque não foram publicados os relatórios de análise que o governo diz existir
não se percebe, nem se explica, porque é que há quem seja demitido e outros não (quer secretários de estado como gestores de empresas publicas)
não se percebe, nem se explica, porque é que os gestores dito terem sido demitidos acabaram por não sair (até agora)
não se percebe, nem se explica, porque é que foram escolhidos para fazer um relatório de avaliação crítica uma "boutique" de um grupo de amigos (das finanças), que tinham estado ligados á difusão dos ditos produtos "tóxicos".
Acresce que parece que o que se conhece das afirmações dos secretários de estado demitidos ainda nos deixa mais perplexos, conhecendo-se a qualidade e a carreira profissional de alguns. A discussão pública deste assunto promete - a ver vamos o que vai ser esclarecido. Incluindo as razões técnicas (ou não) que levaram tantos gestores de empresas públicas a serem tão "estúpidos" e "negligentes" na avaliação de riscos, como nos estão a fazer crer. Estranhamente, quase tudo gente qualificada do PSD. Aqui parece haver gato escondido com o rabo de fora ...


domingo, 5 de maio de 2013

Fora de serviço?


E, de repente, parece que os POS do Multibanco deste país estão todos a ficar fora de serviço nos restaurantes portugueses. Parece que nos cabeleireiros está também a aparecer uma epidemia semelhante. Fazendo algumas perguntas, rápidamente se conclui que ninguém espera que as maquinetas recuperem a saúde a curto prazo, ou mesmo médio prazo. Mas afinal as maquinetas estão bem, obrigado, e de boa saúde. O problema é outro.
Na realidade está em curso um colossal retrocesso da economia baseada nas transferencias digitais de dinheiro, ao nível dos consumidores finais. Depois do sucesso que foi a adopção dos meios electrónicos de pagamento em Portugal, está a dar-se a sua rejeição maciça pelos pequenos negócios e empresas, ou seja, nas transacções de mais baixo valor.
Na grande distribuição, um dos operadores já tinha tomado medidas radicais há alguns meses. Mas agora começa a ser difícil ir a um restaurante, ou a um cabeleireiro, e conseguir pagar com multibanco ou visa (ou mastercartd, ou ...). Estamos a regressar á economia do metálico, do cash, das notas e das moedas.
O processo, em curso, de liquidação dos pequenos operadores da restauração, tem duas causas importantes, para além da regressão do consumo no ambiente de crise. Uma é o brutal aumento do IVA, que foi quase todo (ou mesmo mais do que todo ...) a abater diretamente á margem do setor. O outro chama-se SIBS e as comissões verdadeiramente obscenas com que espolia os pequenos empresários e pequenas empresas.
Uma transação Visa tem uma comissão de cerca de 4 a 5% para um pequeno restaurante. Mas uma transação Multibanco tem uma taxa de quase 2% (!!!!!!). Ambas são gritantes exageros, só possíveis pelo regime de monopolio em que a SIBS opera. (Recorde-se que a única tentativa de interferir com esse monopólio foi feita pelo malfadado BPN).
Se se considerar que não há qualquer risco de crédito numa transação multibanco (operações a débito direto), e o baixo custo operacional de cada transação, é facil compreender o espantoso negócio que são as comissões sobre as operações multibanco de baixo valor. E como as "economias de escala" podem aqui ser importantes: as comissões dos grandes operadores, mesmo na restauração, podem ser 2 a 4 vezes inferiores ás de um pequeno operador. Ser pequeno tem hoje em dia um preço enorme, neste país. Com a margem "comida" pelo IVA, num mercado com uma procura a diminuir, evitar a comissão das transações electrónicas tornou-se uma necessidade imperiosa.
Os consumidores portugueses e as pequenas empresas portuguesas estão a pagar uma pesada fatura pela falta de concorrencia á SIBS, com uma baixa produtividade cuidadosamente protegida pela banca, o que criou um mercado fechado nas transferencias electrónicas de dinheiro. É por isso que sinto nauseas quando vejo o presidente da SIBS, que vive cómodamente instalado num mercado protegido e sem concorrência, a falar com enlevo sobre as ideias liberais. Ainda por cima o homem é conselheiro de Estado (!). Gostaria muito de o ver a gerir um restaurante popular (de preferencia sendo também o empresário).

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Ó meninos, sejam frugais! Claro que aguentam ...

Ó meninos, sejam frugais!
Esta retórica em defesa da frugalidade esconde um elitismo repugnante.
A trágica exibição do homem do BPI, ontem na Assembleia da República, há-de ficar para a história como mais um insulto aos clientes e aos pequenos accionistas do banco, mostrando uma vez mais que o homem simplesmente não tem espessura nem qualidade para o lugar que ocupa (dramas das sucessões muito cuidadosamente geridas ... no BCP o resultado não terá sido melhor ... ) .

Claro que aguentamos.
Claro que houve quem aguentasse (frugalmente) os campos de concentração alemães, os goulags sovieticos, os killings fields do kmhers vermelhos do Cambodja, e outros casos tristemente semelhantes. Mas argumentar com esse facto, ignorando todos os que soçobraram pelo caminho, é simplesmente perverso e inaceitável.
Mas os discursos dessas personalidades (o homem do BPI, a senhora do Banco da Fome, ...) mais não são do que partidarizar ideologicamente serviços socialmente transversais, colando-se directamente ao discurso neoliberal do governo e à sua narrativa pró-empobrecimento "custe o que custar". É que é sempre útil e conveniente estar do lado do poder ...
Agora o banco não se pode admirar se muitos dos seus clientes se acharem insultados e (frugalmente) optarem por não ter lá mais as suas contas bancárias. Até talvez não as tenham lá agora - mas pode ser que no futuro, quando numa volta da economia os bancos se tornarem a lembrar dos seus ex-queridos clientes - esses queridos clientes se lembrem ainda que o banco pode (frugalmente) continuar a viver sem os seus ativos ou créditos. Muitos não o vão esquecer tão cedo.

Por falar nisso: o homem do BPI e os seus colegas também não aguentariam sem os colossais bonus de gestão com que têm sido premiados?  E será que devolveram alguma coisa desses prémios de gestão quando os fabulosos investimentos sem risco em divida soberana feitos pelo BPI degeneraram e deram milhões de prejuízos aos accionistas? Ou quando iam dando cabo do banco nessa trapalhada que foi a burlesca tentativa de compra do BCP (lembram-se)?. Os (maus) resultados do BPI falam por si - e não são só consequência da crise internacional do sistema financeiro:

Cotação das acções do BPI (2007-2013)
Aspirar por uma melhor qualidade de vida é legitimo, é o motor e a justificação do desenvolvimento social, e os governos servem precisamente para ajudar a viabilizar isso - não para deliberadamente empobrecer o pais. Políticas de deliberado empobrecimento do país são uma traição ao eleitorado. Inevitaveis? Não necessáriamente. Mesmo no meio da maior tormenta, é a esperança e o direito a melhores dias que motiva uma sociedade - não o discurso ideológico do castigo á função publica e aos trabalhadores poucos produtivos. O discurso do viver "acima das possibilidades" é umm insulto confrangedor a todos os que têm tentado melhorar a sua qualidade de vida - inclusive pela via do crédito.

É viver acima das possibilidades ambicionar por uma casa a crédito, mesmo que o orçamento seja curto? Claro que se podia ter continuado a viver (frugalmente) em enxovias, em ilhas e noutras condições, em apartamentos sem elevadores e outras facilidades "modernaças" ...
Claro que se podia continuar a viver (frugalmente) sem carro nem televisão.
E (frugalmente) sem máquinas de lavar e frigorificos, e outros electrodomésticos.
E também é claro que podem continuar a viver (frugalmente) sem férias em hoteis e viagens aqueles sitios a que só os outros tinham o dinheiro e o direito a ir.
Concerteza que se pode viver (frugalmente) sem cartões de crédito e facilidades de crédito ...
E também se pode viver (frugalmente) sem tanta educação, com menos cursos e menos doutores e engenheiros. Para quê um curso (o tal bife de vaca) se se pode viver (frugalmente) com o básico, ou, seja, o secundário (as batatas, vá lá - o franguito)?
E para quê tanto cimento, tantas (boas) (auto) estradas, se se pode viver (frugalmente) com a estradas antigas, ou mesmo sem estradas, e (frugalmente) sem tantos automóveis de gente que os comprou com sacrificio e depois se vê á rasca para os pagar ...
Para quê tanta coisa, se também se pode viver (frugalmente) com metade das pensões e reformas, ou mesmo até com menos. Meio século para trás e quase que nada dessas modernices de pensões e subsidios existiam ... e sobreviveram ...
Para quê hospitais publicos bons e bem equipados, se se pode viver (frugalmente) sem isso?

Não perceber isto é simplesmente não compreender a política - e a vida.
Infelizmente há em Portugal, e na Europa, quem não o compreenda.