quinta-feira, 10 de julho de 2014

ES: não olhes para o que fazemos (ou fizemos) ...


A capitalização bolsista do BES era hoje um pouco abaixo de 3000 milhões de euros, após a interrupção das transações em bolsa, depois de fortes quedas recentes da cotação (ver gráfico, obtido no Google Finance). A ESFG controla 25% do capital do BES, que portanto vale cerca de 700 a 800 milhões de euros - ou seja, menos do que a exposição direta conhecida do BES ao grupo GES, que não inclui potenciais impactos do buraco BESA nem o risco indireto do BES aos incumprimentos do GE (como é que o BES será afetado pelas consequencias - incuindo possiveis falencias - de empresas clientes do BES que têm exposição á divida das empresas do universo GES? Informação recente do BES estima que essa componente possa valer cerca de 2000 milhões de euros.). E poderá valer ainda menos quando o mercado retomar as transações das acções.
Ou seja, o valor da "jóia da coroa" da familia, e do GES, não chega sequer para cobrir o risco do BES á divida do GES. No caso do GES querer entregar a sua posição no BES como garantia ou colateral, o valor da sua participação no BES estão longe se serem suficientes, nas condições de mercado a curto prazo. Isto dá uma perspetiva sobre a dimensão do problema, mesmo ignorando que a familia, e o GES, apenas controlam uma parte da ESFG ... Note-se que a familia própriamente dita tem conseguido controlar a gestão do BES através de uma posição de 25%, mas na realidade apenas detém cerca 25% desses tais 25%, graças á conhecida cascata de sociedades do grupo (deterá um pouco mais do que isso, se se anexarem as participações individuais de alguns membros da familia).
Fala-se que o papel (ou divida) do GES em circulação no mercado poderão ser 5 a 6 mil milhões de euros, um numero "colossal" (diria um tal Vitor Gaspar ...). A pergunta é como é que se contruíu esse passivo - uma pergunta que continua sem resposta, mas que certamente se deve a prejuizos continuados de exploração e a negócios ruinosos, sistematicamente escondidos debaixo dos tapetes. O GES diz excluir outras variedades menos conformes de desaparecimento de fundos, mas qual há quem desconfie disso. E ainda vamos ver aparecer a questão das responsabilidades dos auditores.
Durante anos os accionistas principais de um banco de referencia nacional andaram a enganar tudo e todos - ao mesmo tempo que os mesmos protagonistas perseguiam os clientes que não conseguiam esconder do banco as suas dificuldades financeiras - incluindo os pequenos depositantes e credores com dificuldades de tesouraria. O impacto final de tudo isto, inclusivé para além da esfera estritamente financeira, está ainda muito longe de se perceber ....
O BES fez um aumento de capital recente de cerca de mil milhões de euros. Um incumprimento do GES arruinará o efeito do aumento de capital, feito para melhorar os ratios do banco - e novo aumento de capital vai ser necessário a curto prazo. A possibilidade do saneamento do balanço do BES terminar no desaparecimento do banco, por fusão noutro banco, nacional ou internacional, começa a ser inquietante.
E o assunto da nova equipe de gestão é tudo menos reconfortante, por aquilo que significa: mostra que para gerir um BES nestas circunstancias o parece ser importante são as ligações politicas e a capacidade de facilitação e influencia junto do poder politico e da "nomenclatura" no poder, e que são essas capacidades que contam. Isso é especialmente gritante no caso do indigitado presidente da comissão executiva, um gestor sem experiencia de banca, que fez carreira empresarial num monopólio sem concorrencia a sério e que alavancou isso para se tornar politicamente relevante (muitas vezes com teses tecnicamente duvidosas) como ideologo de serviço ao governo e ás teses da austeridade radical. Um investimento que parece que lhe continua a render bons "dividendos".

(Atualizado em 11 de julho)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

E depois das eleições ... um novo xadrez político?

A minha análise dos resultados das ultimas eleições (*), porventura pouco convergente com o que muitos analistas têm dito:
1. O voto de protesto poderá ter sido da ordem dos 20%: crescimento do PS e da CDU, MPT, crescimento de brancos e nulos, e mesmo de outros pequenos partidos, perda de votos da coligação no poder.  Admito que estamos perante um novo xadrêz politico que poderá ser irreversivel - e por isso o quadro conceptual de análise terá que ser diferente.
2. A abstençao terá sido menor do que o costume, mas isso foi escondido pelo aumento da abstenção dita "técnica", que estará entre os 10 e 15%, pelo menos, dos eleitores registados, agravada pela saida de perto de 3% da população (emigração) nos ultimos anos. Como seria de esperar, a redução da abstenção foi canalizada para o voto de protesto.
3. Boas noticias: as hipóteses de governabilidade parecem ter melhorarado. Não é isso que muitos dizem, mas é o que me parece razoavel inferir. Talvez a coisa esteja algo empatada, segundo os resultados destas ultimas eleições, como diz Marcelo - assumindo com isso que ele é que poderia ser a "silver bullet" presidencial que poderia desempatar.  Com base nestes resultados, se estas eleições tivessen sido legislativas (ver aqui) não seria possivel constituir maiorias sólidas. Mas isso ignora que estes resultados abriram as portas a novas soluções que é razoavel antecipar como muito possiveis nas próximas legislativas. Na dinamica de novas eleições legislativas, uma parte dos votos de protesto deverão voltar ao PS - mesmo que o MPT consiga converter-se num movimento politico consistente, o que não é de excluir e é mesmo muito possivel que aconteça.
4. Ao contrário daquilo que o BE e o PC sempre fizeram, nem o MPT nem o Livre parecem ter por vocação o "orgulhosamente sós" que tem caraterizado o comportamento politico do PC e do BE. O facto dos votos do MPT e do Livre não serem neste momento suficientes para uma coligação com maioria absoluta com o PS não significa que não o possam ser nas próximas eleições, até porque a diferença atual para tal é inesperada e surpreendentemente pequena. Visto assim, os resultados destas eleições parecem dizer que:
- o comportamento da direção do PS foi considerada inadequado e insuficiente como protesto reativo e como combate politico contra o governo da coligação e contra as politicas de austeridade sem reforma do estado e da economia
- mas o voto de protesto foi canalizado para novos veiculos partidários, nas franjas atuais do sistema politico e partidário, mas dentro dele, e que em principio sugerem expectativas positivas para a formação de consensos à esquerda. Essa será a grande novidade (finalmente?). Afinal os portugueses parecem sugerir que pretendem consensos partidários, mas dentro da linha de mudança da atitude europeia e da politica de austeridade, e pretendem que esses consensos que materializem nas zonas da esquerda democrática.
5. Tudo indica que o grande perdedor tem sido o CDS, que poderá estar agora reduzido a menos votantes do que o novo MPT, e até talvez mesmo não mais do que o novo Livre - pelo menos enquanto que coligado.
5. Por isso esta nova dinamica poderá vir a ser muito incomoda para o PC ou CDU: apesar de todos reconhecerem que é um dos vitoriosos destas eleições, neste novo cenário o isolacionismo sistemático poderá deixar de render as boas "rendas" que tem rendido de forma sistemática. Curiosa a posição de Jerónimo de Sousa, a reclamar de imediato um lugar em qualquer solução de esquerda, mesmo aceitando que afinal a CDU não a pode conseguir só por si.
5. E o futuro sem futuro do BE parece definido. A ideia que o regresso de Louçã para salvar o BE parece pouco credível - a menos que faça uma pirueta política e se abra a coligações de esquerda e a sujar as mãos na governação. Afinal foi o chumbo do PEC IV e do anterior governo, a aliança suicida do BE com a direita de Portas e Passos Coelho para o derrube de Socrates, que abriu as portas á troika e que acelerou a morte a prazo do BE. Os resultados do BE e do Livre em Lisboa são mesmo muito esclarecedores.
6. MPT e Livre foram as boas noticias destas eleições. Assim saibam sobreviver, para bem da democracia portuguesa. A história do PRD (lembram-se?) pode ser muito edificante e util de ensinamentos ... tanto para Marinho Pinto como para Rui Tavares.

(*) escrito antes de ser conhecida a candidatura de António Costa. A sua eventual liderança do poderá reforçar o "momentum" do PS e assim reduzir um pouco a importancia das novas forças políticas emergentes, mas acima de tudo criaria condições mais favoraveis para consensos á esquerda, envolvendo essas forças.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Gordo, anafado e balofo

Cada vez mais gordo, anafado, balofo, foleiro e vazio de ideais, já todos perceberam que Barroso vai sair da Comissão da UE pela porta mesmo muito pequena do palco europeu. Infelizmente para todos nós, europeus em geral, europeus do sul em especial, e portugueses em particular.
Em Sintra, Barroso apenas terá reforçado a sua mediania provinciana (da "provincia" longinqua de Bruxelas). Pois, afinal a culpa afinal não é nem da UE, nem do euro, nem das politicas estúpidas de austeridade, mas sim dos estados que não resolvem o problema do desemprego. Está tudo dito: afinal foram esses estúpidos (leia-se, os governos de Espanha, Portugal, Grécia, Itália, ...) que criaram desemprego porque foram incompetentes a ... aplicar a austeridade hortodoxa (mais do que hortodoxa, no mais que infeliz caso portugues).
Vale a pena ler o comentário de Paul Krugman (aqui):
  • Sitting in a room listening to EU officials reacting to the European Parliament elections — and it seems to me that they’re deep in denial. Barroso just declared that the euro had nothing to do with the crisis, that it was all failed policies at the national level; a few minutes ago he said that Europe’s real problem is a lack of political will.
Parece que o sonho da fenix renascisda das cinzas (da austeridade) continua na cabeça de responsaveis europeus. Krugman comenta:
  • Sorry, but depression-level slumps didn’t happen in Europe before the coming of the euro. And we know very well what happened: first the creation of the euro encouraged massive capital flows to southern Europe, then the money dried up — and the absence of national currencies meant that the debtor countries had to go through an extremely painful process of deflation. How anyone could deny any role for the currency …
Menos austeridade, mais deficit, mais reforma e mais tempo teriam ditado outros futuros para a europa do sul, embora porventura menos proveitos para a europa do norte:
  • And if there’s one thing Europe has, it’s political will. All across the southern tier, governments have dutifully imposed incredibly harsh austerity in the name of being good Europeans. What should they have done that they haven’t?
  • I guess the notion is that if the Greeks, or the Portuguese, or the Spaniards really, truly committed their all-powerful wills to reform and adjustment, their economies would boom despite deflation and austerity. The possibility that things are so bad — and radicals have been empowered — because the policies are fundamentally misguided just doesn’t seem to be considered.
Em comentário anterior (aqui) Krugman tinha escrito:
  • The European story remains one of deeply destructive economic policies, which have inflicted vast harm — but have not led to unraveling, because the political cohesion of the euro is stronger than people like me realized. The cohesion is a good thing, I guess, but the policies still aren’t working.

ATUALIZAÇÃO (31 de maio de 2014):

Paul Krugman divulgou no seu blog no NYT a apresentação feita na reunião do ECB em Sintra: ver aqui. Não terão sido apenas os comentários de Krugman sobre a UE e Barroso que terão deixado amargos de boca nalguns. Na sua intervenção Krugman pôs acima de tudo em dúvida aquilo a que chama "mysterious doctrine of 2%", ou seja, os fundamentos e a bondade dos numero mágico de 2% como "target" da inflação na zona euro, um dos fundamentos mais importante da política e do mandato do ECB. Krugman recorda os tres argumentos tradcionais a favor, rejeita dois e duvida do terceiro:
  • 1.  ZLB episodes regarded as unlikely at that rate 
  • 2.  DNWR regarded as unlikely to be seriously binding 
  • 3.  Price stability advocates offered a measurement fig leaf 
  • We now know that 1&2 not true. But also good reason to fear a low-inflation trap, so that there is option value to reducing the odds of falling in
ZLB refere-se ao "zero lower bound" caracterisitica da situação de procura agregada insuficiente, associada à "low inflation trap" (como acontece atualmente na Europa e em Portugal) e DNWR é a sigla de" downward nominal wage rigidity", a dificuldade estrutural de reduzir os salários nominais em termos significativos (Portugal é um contra exemplo recente). 
No final Krugman confronta-se explicitamente com as palavras de Draghi, quando este afirma não ver sinais de deflação na zona euro, e fala de um "timidity trap" que está a minar a zona euro.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Apresentação de CONHECIMENTO PESSOAL, de Michael Polanyi

É com especial gosto que anuncio a apresentação pública da minha tradução da principal obra de Michael Polanyi, publicada em 1958 com o título Personal Knowledge. Towards a post critical philosophy. A versão portuguesa é Conhecimento Pessoal, Para uma filosofia pós-crítica, e tem cerca de 450 páginas. Esta é a terceira obra de Michael Polanyi que traduzo, depois de ter publicado A dimensão tácita e O estudo do homem.
A apresentação tem lugar em workshop especializado integrado no congresso ALTEC 2013, uma primeira reunião de um ciclo sobre "Grandes pensadores e pensamentos sobre ciencia, tecnologia e desenvolvimento", próximo dia 28 de Outubro, no edificio da Alfandega do Porto, das 11:00 às 13:00 horas. Para mais informação sobre o programa e o ciclo de encontros, ver aqui.
A tradução desta obra foi uma aventura intelectual e uma descoberta pessoal, um projecto que nos ocupou intensamente durante um ano. Como referi na nota introdutória que escrevi para esta edição,

  • “traduzir um pensador como Polanyi passa por um processo íntimo de partilha de ideais e de vivências, de interiorização (indwelling) dos processos de exploração de ideias e competências associadas”, uma interpelação pessoal, uma “vocação” a que se procurou responder. 
O texto completo dessa nota de introdução pode ser visto aqui.
Esra edição é uma edição académica. Uma edição comercial estará disponível muito brevemente. No entretanto, aqui pode pedir o acesso a capítulos, para fins académicos.

Apesar da sessão estar integrada no ALTEC2013, o acesso a esta sessão é livre (embora sujeita a registo na entrada para a sessão).


domingo, 18 de agosto de 2013

Concorrência: pessoas e setores

O Expresso noticia (aqui) que o novo ministro da economia desconvidou um nome indigitado pelo seu antecessor para presidir á Autoridade da Concorrência. O homem seria irmão de alguém à frente de uma empresa eventuallmente sujeita a atenção especial da Autoridade nos tempos mais próximos. Os mais cáusticos dirão que os interessados na operação estiveram quase a conseguir pôr no lugar alguém potencialmente compreensivo para certos processos complexos de integração empresarial. Outros especularão sobre a limitada base de recrutamento para este tipo de funções, e sobre o que isso pode significar, quer sobre a base de apoio deste governo, quer mesmo sobre as elites da sociedade portuguesa em geral.
Parece que este ministro, e o seu partido, estão muito preocupados com questões de concorrencia e querem mostrar serviço:
  • "Temos a oportunidade para uma melhoria substancial na deteção e atuação eficaz em relação a este tipo de práticas comerciais" de "cumplicidade entre operadores em sectores com concorrência imperfeita ou limitada".
Acontece que essas práticas não são exclusivas de setores como as petroliferas ou telecomunicações. Acontece em quase todos os sectores onde o mercado é controlado por um número muito limitado de operadores como, por exemplo, ... o setor das cervejas. Quem por uma ou por outra razão lidou ou lida de perto com o setor não pode ficar indiferente às estranhas "fronteiras" entre marcas na distribuição, inclusivé inter fronteiras dentro da UE. Práticas de controlo territorial e termos contratuais duvidosos na distribuição não são desconhecidos. A complexa rede de participações sociais entre as empresas internacionais do setor favorece condições para mecanismos discretos e súbtis de controlo indirecto e "top down". A UE tem repetidamente denunciado e multado o setor durante os últimos anos. Por exemplo:
  • The European Commission has fined the Dutch brewers Heineken, Grolsch and Bavaria a total of €273 783 000 for operating a cartel on the beer market in The Netherlands, in clear violation of EC Treaty rules that outlaw restrictive business practices (Article 81). The Commission's decision names the Heineken group, Grolsch and Bavaria, together with the InBev group which also participated in the cartel. Beer consumption is around 80 litres per capita in The Netherlands. Between at least 1996 and 1999, the four brewers held numerous unofficial meetings, during which they coordinated prices and price increases of beer in The Netherlands. InBev received no fines as they provided decisive information about the cartel under the Commission’s leniency programme (aqui).
  • Today the Commission imposed fines totalling € 2.5 million on the two main brewery groups in France. The two groups are being fined for having taken part in an agreement aimed at establishing equilibrium between their integrated beer distribution networks in the away-from-home sector (hotels, restaurants and cafés) France. The agreement was also aimed at limiting the acquisition costs of drinks wholesalers. (aqui)
  • The European Commission welcomes the judgment by the European Court of Justice (Case C-3/06 P) dismissing in its entirety the appeal by Danone against the judgment of the Court of First Instance (CFI) of October 2005 and confirming that repeat offences by companies, even when many years in the past, should be taken into account when setting fines in competition cases. The original case concerned cartels operated on the Belgian beer market between 1993 and 1998. The Court upheld the fine of €42 412 500 as set by the CFI. This means that over 96 % of the Commission's fine on Danone and 97% of the Commission's fines on all cartel participants remain. (aqui)
Claro que as práticas se vão adaptando e mudando com os anos, procurando não se repetirem ostensivamente. Mas os mais cáusticos desconfiarão que meteram a raposa no galinheiro e dirão que as suas teses parecem confirmar-se. Outros dirão que esperam ser surpreendidos - especialmente no setor das cervejas - agora que um "insider" detém o poder.
Outros ainda dirão que isto de olhar para os gestores de grandes empresas como reservas para políticos de mãos limpas pode ter grandes problemas ... políticos.

2. Lembram-se das cervejas Cintra? Só queria atingir dez por cento do mercado nacional, mas ficou pelos 1% e um colapso empresarial ... Mas o empresário tinha grande experiencia e sucesso no setor (no Brasil, não cá ...) - por isso não se invoquem os tradicionais "erros de gestão" dos treinadores de bancada. Mais uma operador no mercado poderia ter significado mais concorrencia e beneficiado os consumidores finais. 
O que é aconteceu? Como se explica o desastre empresarial? Porquê tanto silencio à volta da história, especialmente na imprensa economica? Estou á espera que alguém faça a história crítica e independente do caso (que magnifica proposta para uma tese de doutoramento!...).
Entretanto aquela linda fábrica á margem da principal autoestrada deste país recorda todos os dias a quem por lá passa que nisto de concorrencia, ele há setores e ... setores. Um estranho e incómodo monumento á (falta de) concorrência.

sábado, 3 de agosto de 2013

Empreendedorismo: uma história transmontana



Para quem vai a Bragança e quer almoçar bem, o restaurante O Abel, em Gimonde, é uma das referências a não perder.
Mas o que me interessa aqui é a história da casa, descrita de forma exemplar numa das paredes da sala de entrada. É uma saga de empreendedorismo familiar que dispensa comentários, e que bem poderia constituir um caso de discussão para as minhas aulas, quer de gestão como de inovação.
As palavras falam por si (mesmo que a pontuação não seja uma perfeição, mas que se mantém na transcrição):

  • O restaurante O Abel nasceu a 1 de Abril de 1984, quando o senhor Abel e a sua esposa Clóris decidiram tentar mudar o rumo das suas vidas, naqueles tempos, difíceis. Ele camionista e ela doméstica já com quatro filhos, decidiram arriscar o pouco que tinham num pequeno negócio situado nesta aldeia, inicialmente serviam apenas petiscos, que se tornaram rapidamente famosos pelo seu sabor único, as tripas com feijão servidas na malga eram na altura o petisco mais prezado. Com a clientela a crescer decidiram arriscar noutros pratos, a escolha caiu nas carnes assadas condimentadas com especiais ervas aromáticas existentes na região, e tal como nos petiscos rapidamente se destacaram. Mais clientes eram sinónimo de novos horizontes, e a 1 de abril de 2001 abriram este novo espaço juntamente com os seus filhos, mantendo a essência, a humildade, o trabalho e o amor de uma família transmontana. A 20 de janeiro de 2009 receberam da Câmara Municipal de Bragança um Diploma de Mérito pela contribuição para a fixação económica na área rural do concelho e gastronomia local, pelo seu contributo para a qualidade da oferta gastronómica  e como estímulo à diferenciação positiva na atividade e no setor. Atualmente o Restaurante O Abel continua a ser a casa de ambiente familiar, rodeado pelas belas paisagens do Parque Natural de Montesinho onde pode deliciar-se com as melhores carnes transmontanas grelhadas na brasa.
  • O sucesso deste restaurante deve-se unicamente à dedicação de uma família e seus clientes.

Quatro notas:
1. Gimonde é um dos sítios mais quentes de Portugal, porventura ainda pior do que Mirandela. Mas o restaurante tem ar condicionado.
2. Esqueçam a famosa posta mirandesa. Peçam RODEÃO e depois contem como foi ... (Os agradecimentos ao artista Rodrigues da Fonte, de Bragança, pela sugestão)
3. Localização, pelo Google Maps (nova versão, mais um caso como o que tratei recentemente no meu outro blog (aqui)), vendo-se a zona urbana de Bragança á esquerda e Gimonde á direita. Ao fundo, terras de Espanha.


4. Registe-se a forma original de promover e anunciar bons vinhos transmontanos, a preços convidativos. As minhas recomendações: o mais barato, Montes Ermos, e um do mais caros, Trovisco.


quinta-feira, 4 de julho de 2013

E agora?

1. Até Peter Wise, o correspondente do FT em Lisboa, diz (aqui) que Portugal cumpriu quase todo o programa de consolidação fiscal definido pela troika:
  • Portugal has so far achieved about two-thirds of the fiscal consolidation required under the three-year bailout programme. 
embora reconheça que afinal pioramos e que entramos numa recessão profunda:
  • But the Organisation for Economic Co-operation and Development and other economists forecast that public debt is likely to peak at above 130 per cent national output by 2015, calling into question the sustainability of fiscal consolidation and the prospects of lifting the economy out of a deep recession. 

2. Ouvindo os oráculos europeus, em especial durante os últimos dias, parece ser um constante o argumento (ou ameça?) de que não continuar com o programa da troika deita a perder os sacrifícios de dois anos e os sucessos conseguidos. Só que não se compreende quais são esses sucessos - salvo o ter tentado cumprido acriticamente um programa louco de empobrecimento e desastre social em nome de uma experiência utópica de engenharia económico e social.
O poder europeu parece acima de tudo interessado em salvar a face, garantir que o seu diktat é cumprido (mesmo que os resultados sejam o desastre que se está a ver) e que as aparências de mantêm - e que a crise do euro afinal se vai ignorando e escondendo debaixo do tapete, na esperança de que se vá resolvendo por artes mágicas que dispensem a politica e vontade dos povos europeus.

3. Mas a carta de demissão de Vitor Gaspar acabou de vez com o mito, pelo menos o mito interno. O arquiteto das políticas internas de austeridade “custe o que custar” e o agente de confiança dos mentores europeus dessas políticas disse claramente, e sem margens para dúvidas, que afinal o rei vai nú e que tudo falhou, e que é preciso um novo ciclo. Perante isso a posição de Barroso e dos alemães parece ser, uma vez mais, elogiar os sucessos que o próprio Gaspar desmentiu categoricamente.
Que se veja, o único sucesso portugues foi cumprir acriticamente - e pior, ter agravado em muito o plano inicial de austeridade. Uma análise contrafactual sugere que estaríamos muito melhor no plano económico e financeiro se esse agravamento delirante não tivesse sido feito. Mas foi.

4. O roteiro salvador á nossa frente parece ser assim: aguentar até meados do próximo ano, acabar de cumprir o programa (“custe o que custar”), ficar livre da troika e encontrar a praia salvadora nos braços do BCE e dos mercados. Pelo meio anunciar ao mundo o “sucesso” do programa salvador e agradecer reconhecidos a esmola concedida.
Confesso não entender: cumprir o programa (entendido pela troika como incluindo os cortes adicionais propostos) significará implementar o programa dito ser de “reforma estrutural do estado” que implicará o tal corte dos 4 ou 5 mil milhões de euros, uma verdadeira bomba de recessão adicional que irá agravar ainda mais a espiral recessiva em que nos metemos. As consequências económicas, sociais e financeiras disso são previsíveis, e de certeza não serão boas. A situação vai ainda agravar-se mais com as consequências disso ao longo do resto deste ano e dos próximos anos. O acesso aos mercados, um quase mito hoje em dia, ficará ainda mais comprometido. O poder europeu pode ficar satisfeito, e até mesmo reconhecido, para com o “país cumpridor”, mas os mercados não vão nessa: no fim do programa as notações de rating das agencias internacionais não vão ser muito melhores do que as atuais - se é que não vão ser piores - e nessas condições só os especuladores irão investir na divida portuguesa, e a taxas de juro insustentaveis. Portugal ficará, na melhor das hipóteses, nas margens atribuladas e especulativas dos investidores em divida pública, afastado dos grandes operadores desses mercados (por causa da notação insuficiente de rating).
Não credito que os tais cortes dos 4 ou 5 mil milhões devam ser implementados nestas circunstâncias, nem que existam condições políticas e sociais minimas para isso, no caso de ser tentado. O único argumento é que isso abrirá depois a porta do BCE - embora ninguém saiba exatamente como e com que condições. Que eu compreenda, nada disso está garantido, e pelo meio continuaremos a destruir o país social e económico.

5. Claro que com a crise da coligação tudo fica ainda pior. E a viabilidade do tal roteiro salvador passa de precária a (quase) impossível.
Apesar dos seus custos óbvios, querer adiar ainda mais eleições que possam ser clarificadoras, será agravar ainda mais esses custos e tornar ainda mais problemático o desfecho disto tudo.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

"Quando não temos o carácter para saber qual o caminho, alguém tem de nos o indicar"

1. Um magnifico deputado do PSD emitiu a sua opinião (ver noticia no Jornal de Negócios, aqui):
 “a análise crítica da coisa pública não pode ser só jurídica, tem que ser de ética, republicana e de bom senso. ... Se existe crime ou não, não sei. Mas quando se falha de forma tão estrondosa, há um caminho, o caminho da rua”.
“Falharam, e quem falha sai. ... Eles têm que sair, já deviam ter saído pelo próprio pé. ... Quando não temos o carácter para saber qual o caminho, alguém tem de nos o indicar”.
E ainda mais, quanto a experimentalismos económicos:
- "Quem perde ... porque decidiu fazer apostas baseados em algoritmos que pareciam o jogo da roleta, há mais que justa causa [para despedimento"
Considerações que se aplicam como uma luva ao atual governo, e que se poderiam mesmo considerar como adequadas á celebração do seu segundo aniversário. Perante o colossal falhanço das políticas e dos algoritmos neoliberais da austeridade, na realidade são afirmações muito certeiras. 

2. No entanto a opinião emitida pelo douto deputado não era sobre o governo da atual maioria, e desconfio que subscrevesse a aplicação dos seus doutos juizos a tal, embora a lógica da sua aplicação seja direta e imediata. Não, referia-se antes ao dito caso dos swaps - um caso que cada vez se mostra mais intrigante, e que cada vez mais assume contornos de obscuros ajustes de contas internos no PSD, entre facções rivais, e de propaganda demagógica do governo para tentar fazer passar uma imagem de "limpeza" e rigor que lhe falta em quase tudo.
Na realidade
- não se percebe, nem se explica, porque é que o caso aparece agora, sendo que era bem conhecido do governo desde a sua posse, e foi olimpicamente ignorado (tendo mesmo o risco potencial mais ou menos duplicado neste últimos dois anos).
- não se percebe, nem se explica, porque é que se fez (ou quer fazer) o resgate dos swaps agora, criando agora uma dívida real (quando na realidade era uma divida potencial), em vez de aguardar pelo seu pedido de resgate pelos bancos (o que parece não ter acontecido)
não se percebe, nem se explica, porque não foram publicados os relatórios de análise que o governo diz existir
não se percebe, nem se explica, porque é que há quem seja demitido e outros não (quer secretários de estado como gestores de empresas publicas)
não se percebe, nem se explica, porque é que os gestores dito terem sido demitidos acabaram por não sair (até agora)
não se percebe, nem se explica, porque é que foram escolhidos para fazer um relatório de avaliação crítica uma "boutique" de um grupo de amigos (das finanças), que tinham estado ligados á difusão dos ditos produtos "tóxicos".
Acresce que parece que o que se conhece das afirmações dos secretários de estado demitidos ainda nos deixa mais perplexos, conhecendo-se a qualidade e a carreira profissional de alguns. A discussão pública deste assunto promete - a ver vamos o que vai ser esclarecido. Incluindo as razões técnicas (ou não) que levaram tantos gestores de empresas públicas a serem tão "estúpidos" e "negligentes" na avaliação de riscos, como nos estão a fazer crer. Estranhamente, quase tudo gente qualificada do PSD. Aqui parece haver gato escondido com o rabo de fora ...


domingo, 5 de maio de 2013

Fora de serviço?


E, de repente, parece que os POS do Multibanco deste país estão todos a ficar fora de serviço nos restaurantes portugueses. Parece que nos cabeleireiros está também a aparecer uma epidemia semelhante. Fazendo algumas perguntas, rápidamente se conclui que ninguém espera que as maquinetas recuperem a saúde a curto prazo, ou mesmo médio prazo. Mas afinal as maquinetas estão bem, obrigado, e de boa saúde. O problema é outro.
Na realidade está em curso um colossal retrocesso da economia baseada nas transferencias digitais de dinheiro, ao nível dos consumidores finais. Depois do sucesso que foi a adopção dos meios electrónicos de pagamento em Portugal, está a dar-se a sua rejeição maciça pelos pequenos negócios e empresas, ou seja, nas transacções de mais baixo valor.
Na grande distribuição, um dos operadores já tinha tomado medidas radicais há alguns meses. Mas agora começa a ser difícil ir a um restaurante, ou a um cabeleireiro, e conseguir pagar com multibanco ou visa (ou mastercartd, ou ...). Estamos a regressar á economia do metálico, do cash, das notas e das moedas.
O processo, em curso, de liquidação dos pequenos operadores da restauração, tem duas causas importantes, para além da regressão do consumo no ambiente de crise. Uma é o brutal aumento do IVA, que foi quase todo (ou mesmo mais do que todo ...) a abater diretamente á margem do setor. O outro chama-se SIBS e as comissões verdadeiramente obscenas com que espolia os pequenos empresários e pequenas empresas.
Uma transação Visa tem uma comissão de cerca de 4 a 5% para um pequeno restaurante. Mas uma transação Multibanco tem uma taxa de quase 2% (!!!!!!). Ambas são gritantes exageros, só possíveis pelo regime de monopolio em que a SIBS opera. (Recorde-se que a única tentativa de interferir com esse monopólio foi feita pelo malfadado BPN).
Se se considerar que não há qualquer risco de crédito numa transação multibanco (operações a débito direto), e o baixo custo operacional de cada transação, é facil compreender o espantoso negócio que são as comissões sobre as operações multibanco de baixo valor. E como as "economias de escala" podem aqui ser importantes: as comissões dos grandes operadores, mesmo na restauração, podem ser 2 a 4 vezes inferiores ás de um pequeno operador. Ser pequeno tem hoje em dia um preço enorme, neste país. Com a margem "comida" pelo IVA, num mercado com uma procura a diminuir, evitar a comissão das transações electrónicas tornou-se uma necessidade imperiosa.
Os consumidores portugueses e as pequenas empresas portuguesas estão a pagar uma pesada fatura pela falta de concorrencia á SIBS, com uma baixa produtividade cuidadosamente protegida pela banca, o que criou um mercado fechado nas transferencias electrónicas de dinheiro. É por isso que sinto nauseas quando vejo o presidente da SIBS, que vive cómodamente instalado num mercado protegido e sem concorrência, a falar com enlevo sobre as ideias liberais. Ainda por cima o homem é conselheiro de Estado (!). Gostaria muito de o ver a gerir um restaurante popular (de preferencia sendo também o empresário).

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Ó meninos, sejam frugais! Claro que aguentam ...

Ó meninos, sejam frugais!
Esta retórica em defesa da frugalidade esconde um elitismo repugnante.
A trágica exibição do homem do BPI, ontem na Assembleia da República, há-de ficar para a história como mais um insulto aos clientes e aos pequenos accionistas do banco, mostrando uma vez mais que o homem simplesmente não tem espessura nem qualidade para o lugar que ocupa (dramas das sucessões muito cuidadosamente geridas ... no BCP o resultado não terá sido melhor ... ) .

Claro que aguentamos.
Claro que houve quem aguentasse (frugalmente) os campos de concentração alemães, os goulags sovieticos, os killings fields do kmhers vermelhos do Cambodja, e outros casos tristemente semelhantes. Mas argumentar com esse facto, ignorando todos os que soçobraram pelo caminho, é simplesmente perverso e inaceitável.
Mas os discursos dessas personalidades (o homem do BPI, a senhora do Banco da Fome, ...) mais não são do que partidarizar ideologicamente serviços socialmente transversais, colando-se directamente ao discurso neoliberal do governo e à sua narrativa pró-empobrecimento "custe o que custar". É que é sempre útil e conveniente estar do lado do poder ...
Agora o banco não se pode admirar se muitos dos seus clientes se acharem insultados e (frugalmente) optarem por não ter lá mais as suas contas bancárias. Até talvez não as tenham lá agora - mas pode ser que no futuro, quando numa volta da economia os bancos se tornarem a lembrar dos seus ex-queridos clientes - esses queridos clientes se lembrem ainda que o banco pode (frugalmente) continuar a viver sem os seus ativos ou créditos. Muitos não o vão esquecer tão cedo.

Por falar nisso: o homem do BPI e os seus colegas também não aguentariam sem os colossais bonus de gestão com que têm sido premiados?  E será que devolveram alguma coisa desses prémios de gestão quando os fabulosos investimentos sem risco em divida soberana feitos pelo BPI degeneraram e deram milhões de prejuízos aos accionistas? Ou quando iam dando cabo do banco nessa trapalhada que foi a burlesca tentativa de compra do BCP (lembram-se)?. Os (maus) resultados do BPI falam por si - e não são só consequência da crise internacional do sistema financeiro:

Cotação das acções do BPI (2007-2013)
Aspirar por uma melhor qualidade de vida é legitimo, é o motor e a justificação do desenvolvimento social, e os governos servem precisamente para ajudar a viabilizar isso - não para deliberadamente empobrecer o pais. Políticas de deliberado empobrecimento do país são uma traição ao eleitorado. Inevitaveis? Não necessáriamente. Mesmo no meio da maior tormenta, é a esperança e o direito a melhores dias que motiva uma sociedade - não o discurso ideológico do castigo á função publica e aos trabalhadores poucos produtivos. O discurso do viver "acima das possibilidades" é umm insulto confrangedor a todos os que têm tentado melhorar a sua qualidade de vida - inclusive pela via do crédito.

É viver acima das possibilidades ambicionar por uma casa a crédito, mesmo que o orçamento seja curto? Claro que se podia ter continuado a viver (frugalmente) em enxovias, em ilhas e noutras condições, em apartamentos sem elevadores e outras facilidades "modernaças" ...
Claro que se podia continuar a viver (frugalmente) sem carro nem televisão.
E (frugalmente) sem máquinas de lavar e frigorificos, e outros electrodomésticos.
E também é claro que podem continuar a viver (frugalmente) sem férias em hoteis e viagens aqueles sitios a que só os outros tinham o dinheiro e o direito a ir.
Concerteza que se pode viver (frugalmente) sem cartões de crédito e facilidades de crédito ...
E também se pode viver (frugalmente) sem tanta educação, com menos cursos e menos doutores e engenheiros. Para quê um curso (o tal bife de vaca) se se pode viver (frugalmente) com o básico, ou, seja, o secundário (as batatas, vá lá - o franguito)?
E para quê tanto cimento, tantas (boas) (auto) estradas, se se pode viver (frugalmente) com a estradas antigas, ou mesmo sem estradas, e (frugalmente) sem tantos automóveis de gente que os comprou com sacrificio e depois se vê á rasca para os pagar ...
Para quê tanta coisa, se também se pode viver (frugalmente) com metade das pensões e reformas, ou mesmo até com menos. Meio século para trás e quase que nada dessas modernices de pensões e subsidios existiam ... e sobreviveram ...
Para quê hospitais publicos bons e bem equipados, se se pode viver (frugalmente) sem isso?

Não perceber isto é simplesmente não compreender a política - e a vida.
Infelizmente há em Portugal, e na Europa, quem não o compreenda.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Mitos e realidades de um (não) regresso aos mercados

Faz sentido este dito "regresso aos mercados"? A perplexidade da opinião púbica é manifesta: "então de repente isto passou a ser uma maravilha e acabaram os problemas? isto é um sucesso?".

Na frente interna, que depende deste governo, a situação é hoje bem pior do que era quando foi assinado o memorando com a troika:
- a divida aumentou, em valor absoluto e % PIB
- o deficit mantém-se muito acima dos 3% (mesmo acima do dobro, sem operações extraordinárias)
- a recessão continua (crescimento negativo e acima do previsto)  e acentuou-se, tendo-se entrado numa espiral recessiva
- o desemprego explodiu e não tem perspetivas de redução a curto prazo
- as metas internas nunca foram cumpridas, antes pelo contrário - este é um governo que perdeu a credibilidade interna
- as perspetivas a curto e médio prazo são muito sombrias quanto a crescimento e estabilidade social a curto e médio prazo
- mesmo o tão apregoado "sucesso" so equilíbrio da balança comercial é ilusório e instável, consequência da brutal quebra de consumo interno e do investimento público e privado - aos primeiros sinais de retoma inevitavelmente inverter-se-á (a menos que os portugueses nunca mais mudem de carro, televisores, frigorificos, ... e que as empresas portuguesas deixem de comprar novos equipamentos ... algo como tem acontecido em Cuba!)

Logo o risco interno (endogeno da economia portuguesa) é hoje em dia bem pior do que era há dois anos e com perspetivas ainda mais sombrias. Portanto o risco interno aumentou - logo a taxa de juro a médio e longo prazo devia por isso estar a aumentar e não a diminuir.
Se está a diminuir é porque esse aumento do risco interno é percebido como pouco relevante a médio prazo - porque o risco fundamental é externo a Portugal e depende em 80%, 90%, ou mesmo mais, das políticas globais da zona euro e da UE, praticamente exógenas á economia portuguesa. E essas sim, têm mudado e com isso também a avaliação do risco se alterou dramáticamente - em especial com as posições e intervenções do BCE. Se Portugal pode hoje fazer estes tipo de operações é porque essa componente exógena se alterou favoravelmente - sem, como é publico e notório, que para isso o governo se tivesse seriamente empenhado ou lutado por isso.

Mas esta aparente vitória do governo, é na realidade uma derrota:
1. Foi feita em condições bem piores do que podia muito bem ser: se não fosse o colossal falhanço das políticas deste governo, as perspetivas da economia portuguesa não seriam tão sombrias, e o risco interno seria menor, para um mesmo risco externo, e provavelmente teríamos conseguido uma taxa de juro marginalmente mais favoravel. Tivesse a política dos últimos dois anos sido de "austeridade inteligente" e não de bruta "austeridade custe o que custar", com enormes sacrificios inúteis (de pouco ou nada serviu o corte dos subsidios em 2012 perante o colapso que criou na procura interna e que agravou o deficit, a dívida e o desemprego, tudo exatamente ao contrário do que o governo anunciava) e o regresso aos mercados teria sido mais proveitoso para os portugueses.
2. Segundo, se o governo se tivesse empenhado seriamente em mudanças no posicionamento europeu perante a "austeridade custe o que custar", o risco externo poderia ser porventura algo menor. Mas o governo nunca soube / quiz fazer isso.
3. Há ainda a questão da sindicância da operação: porquê e para quê? Afinal nem o governo parece acreditar que exista uma genuina procura pela dívida portuguesa, e não arrisca ir ao mercado sem uma (muito cara) rede de segurança. A sindicância da operação é uma contradição manifesta com a retórica da propaganda do governo, e serviu (uma vez mais) para passar para a banca uns bons milhões de euros (provavelmente dezenas de milhões de euros)

Mas há que ser realista: esta operação é uma gota de água nas necessidades de financiamento da economia portuguesa durante este e próximos anos, e não significa que Portugal possa a partir de hoje colocar divida no mercado sem problemas. O governo esforça-se por sugerir isso - mas a realidade é diferente.
Tão diferente que ao mesmo tempo que anuncia exultante este dito "sucesso" (como seu), o governo teve mesmo que pedir mais tempo á troika. Se Portugal tivesse mesmo genuinamente "regressado aos mercados", não teria precisado deste pedido desesperado de mais tempo - depois do próprio governo ter sistematicamente dito que não queria nem precisava disso.

Até no caso da Grécia, as taxas de juros de financiamento têm estado também em queda acelerada, apesar de continuarem a níveis superiores ás de Portugal, mas que uma vez mais mostram a influencia decisiva do risco externo sobre o risco interno, nas circunstancias atuais da zona euro.
A crise portuguesa é acima de tudo uma vítima da crise do euro e da Europa (ao contrário do que o propalado embuste da narrativa do "gastamos acima do que devíamos" sugere). Ora os mercados parece terem por adquirido que isso de deixar cair a Grécia era afinal "bluff" e que mesmo em condições extremamente negativas e sem perspetivas (como continua a acontecer na Grécia), afinal o centro não deixou cair a periferia. Juntem-se as medidas positivas do BCE e o cenário do risco externo alterou-se radicalmente. Graças a Deus que podemos tirar algum partido disso agora. Pena é que não passamos tirar ainda melhor partido disso.
Na realidade a cosmética disto tudo parece ter objetivos tanto externos (BCE, criando condições para poder auferir de um apoio muito maior do mesmo BCE, logo "fora dos mercados", paradoxalmente por já não estar "fora dos mercados"), como internos (propaganda, nas vésperas de querer definir os tais 4 mil milhões de cortes que irão provavelmente acentuar ainda mais a espiral recessiva em que nos meteram).

sábado, 12 de janeiro de 2013

Muito elucidativo: Angelo Correia dixit ...

1. Liguei a televisão e na TVI24 falava o anterior patrão (e mentor?) do atual primeiro ministro: Angelo Correia. Também anterior mentor de Luis Filipe Menezes, quando este pensava que tinha capacidade para liderar o PSD (e pelos vistos Angelo Correia também pensava que Menezes tinha essa capacidade).
Primeiro fiquei surpreendido. Pus a gravar. Depois compreendi que a entrevista talvez seja muito significativa, por aquilo que mostra de divergencias internas no PSD, de total esgotamento da credibilidade do governo e das políticas que tem seguido e do crescente afastamento de importantes barões do PSD relativamente a este governo. Basta atentar no que ele diz sobre a posição perante a Europa, sobre Durão Barroso e sobre o governo (e implicitamente sobre Passos Coelho).
Parece que já há muita gente a achar que é preciso saltar do barco, porque o naufrágio completo da política da austeridade na UE e em Portugal parece cada vez mais claramente visivel.

2. Extratos da entrevista, a propósito do famigerado relatório do FMI e das mais recentes declarações do primeiro ministro:
...
Como é que é humanamente possível despedir 50 ou 100 mil pessoas em Portugal?
Se chegarmos a esse ponto (despedir essas pessoas porque não há dinheiro), então se chegarmos a esse ponto temos que ir á Europa a sério, e deixarmos de ser bons alunos e passarmos a ser antes reclamantes.
Se isso acontecer, temos que deixar de ser bons alunos. Ser bons alunos pode ter vantagens, mas tem uma desvantagem enorme: passam a olhar para nós como conformistas.
...
Perante isto (despedir ou não cumprir com a troika) não devemos optar pela primeira opção, mas sim confrontar os lideres europeus com o falhanço das ideias e políticas deles.
Na UE, somos irmãos deles. É assim que tratam dos irmãos? É a angustia de descobrirmos que estamos ligados a uns cavalheiros e a uns Estados que têm por nós uma consideração nula.
...
Como é que isso é possível? Aumentar 100 mil familias ao desemprego? Não podemos. O risco pior que corremos é pôr mais essas 100 mil familias no desemprego, não é não cumprir com a troika.
...
(Temos que) rejeitar aquilo que o Dr Durão Barroso cinicamente anda a dizer, quando vem a Portugal, de que os Governos é que querem fazer isso (a austeridade), que não é uma imposição deles (UE). Como se ele, coitadinho, possa lavar as mãos, como Poncio Pilatos, de tudo aquilo que a Europa nos anda a fazer hoje em dia: é uma indecencia política e uma falta de honestidade. É totalmente uma falta de respeito para com o país. Não é crível, verdade ou sério dizê-lo. Há coisas que não são entendíveis!.
Este momento histórico também serve para outra coisa: perceber como se comportam algumas pessoas.
...
O governo é totalmente omisso na visão estratégica. Politica e moralmente, o governo é obrigado a dizer-nos qual o rumo e a estratégia que pensa para o país. O governo tem que ter uma estratégia nacional. E não tem. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Histórias de Natal

1. O ministro da defesa não foi visitar os tropas em missão fora de Portugal, quebrando uma tradição. É claro que isso é um incómodo e uma chatice, ainda por cima numa altura em que há tanta coisa natalícia (incluindo as prendas) a tratar por cá.
A desculpa pública dada para isso é um insulto ás tropas e aos portugueses: poupar o dinheiro da viagem. Se fosse verdade que já não há dinheiro para uma viagem de soberania nestas circunstancias, então já não existe país ... E nesse caso poupar-se-ia mais se não se mantivessem tropas no exterior - naquilo que é um dos mais importantes e bem sucedidas atividades das forças armadas portuguesas. Se não há dinheiro para se visitar esses homens e essas mulheres - como se compreende que haja dinheiro para todas as outras viagens do poder?
Na realidade o problema é outro: um governo que não viaja (especialmente para Bruxelas e outras capitais europeias) porque parece não saber como o fazer.
Este ministro já nos tinha sugerido a "fotografia do ano" (ver aqui). Agora esta é sem dúvida a "não viagem do ano".

2. O prmeiro ministro disse no facebook aquilo que não teve coragem para dizer no discurso oficial: "Este não foi o Natal que merecíamos". Espantosa admissão de culpa - mas sem pedido de desculpas.
Recordo que foi este (candidato a primeiro ministro) que pedíu desculpas por apoiar no parlamento umas medidas do anterior governo que eram uma brincadeira comparadas com o que está a acontecer, e desta vez ainda por cima da responsabilidade dos seus próprios erros de governação.
Este é o primeiro ministro que está a dar cabo dos pequenos empresários da restauração com a subida do IVA - mas que lutou denodadamente por não aumentar o IVA do leite achocolatado, antes e agora.

3.  Uma bela história de Natal na SIC: a familia Pereira, 3 jovens músicos e a familia simples e modesta que os lançou do extremo norte de Lanhelas para os grandes centros e orquestras de musica portuguesas, em Lisboa. Uma história exemplar de "upward mobility" com talento e com muitos sacrificios.
Quando se compara esta história com a ascensão profissional e política do primeiro ministro e de outros colegas do governo, sente-se uma perturbante emoção.

BES, Akoya e o radioso sol angolano (mas não só)

Afinal de contas, que confiança é que se pode depositar em Ricardo Espírito Santo e no seu banco (BES) e no seu grupo empresarial?
Ao longo das últimas décadas tem sido o "banqueiro do regime" e dos vários governos, fossem quais fossem as suas cores. Hábil em flutuar no mundo agitado das águas da política, foi sempre flutuando e com isso arrecadando magnificos negócios na área pública ou para-pública. Sempre com a mais respeitosa e respeitável aparência de senador.
Mas as ultimas notícias são verdadeiramente alarmantes. O BES já tinha estado envolvido anteriormente em muitos casos dúbios na área para pública (lembram-se daqueles tais sobreiros?, por exemplo). Mas agora está bem claro que
- o banqueiro depositou ilegalmente capitais no estrangeiro, que agora repatriou e de que pagou as multas e coimas que foram precisas para se livrar de ações penais (ver aqui, noticia do Expresso on line). Isso só foi conhecido em consequência das investigações sobre a Akoya e o banqueiro apenas retrocedeu em face de ter sido aberta a investigação do caso Monte Branco. Falta saber quantos mais casos é que o banco, ou porventura uma pouca conhecida sociedade de consultadoria do grupo, ajudou a expatriar ilegalmente capitais através da mesma sociedade suíça com quem afinal parece que as ligações do BES & Cª são muito mais profundas e eloquentes do que se conhecia.
- o envolvimento da Akoya e do BES com esse tal "empresário angolano" Madaleno, Familia & Ca, através do Sol (e da Cofina) é agora manifesto e público (ver aqui, notícia do Púbico on line), assim como é público o interesse dessas entidades sobre a dita privatização da RTP, "the next big thing" em negócios á custa do erário público - ou seja, o banqueiro tem trabalhado bem e adubado cuidadosamente o terreno para mais um grande negócio para-publico á custa do poder da altura (será que sem contrapartidas?).
Esta última noticia no fundo mostra uma relação clara (porventura menos direta mas não menos eloquente) entre o grupo ES e os tais suiços da Akoya, através desses Madalenos, pontas de lança do BES em Angola.
Que um dos banqueiros mais importantes do país esteja assim "atascado" neste mar de lama (não) é surpreendente, mas seguramente é arrepiante.
Uma pergunta óbvia: pode uma pessoa nessas circunstancias continuar a ter licença do Banco de Portugal quanto a idoneidade pessoal para gerir um banco - ainda por cima um dos mais importantes do país?
É manifesta o cuidado e a reserva com que alguma comunicação social evita falar destes casos. Porquê?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

TAP: um grande problema

1. Apesar do spin que o governo procura fazer nos media, a verdade é que o desfecho do processo de privatização da TAP é um fiasco e uma trapalhada. A realidade foi mais forte que o voluntarismo de privatizar "custe o que custar" a contraciclo da conjuntura.
Um fiasco porque não conseguiu vender a empresa, apesar das expectativas anteriormente criadas.
Uma trapalhada porque se fica com a sensação que o governo tentou evitar o falhanço da operação a dois tempos: num primeiro tempo agarrando-se á única proposta que tinha para mostrar que a operação não era um fiasco, e agora num segundo tempo, e perante a pressão de alguma opinião pública, tira o tapete ao grupo colombiano, na realidade com medo de assumir as responsabilidades de entregar a empresa ao candidato comprador e do que poderia acontecer, quer sob o ponto de vista financeiro como, acima de tudo, empresarial.
(Se o que candidato comprador está a dizer a verdade, o argumento anunciado de falta de garantias, etc, parece uma trapalhada dentro da trapalhada - espera-se que isso se esclareça).

2. Com esta decisão, o governo ficou com uma batata muito quente nas mãos. Já se percebeu que assegurar o funcionamento da empresa nos próximos meses vai exigir recursos financeiros significativos e degradar o valor da empresa.

3. Muito do discurso contra a privatização da TAP é pura treta e justifica-se por puras razões ideológicas e de oportunismo político. A empresa é tudo menos uma "jóia da coroa" ou um "recurso estratégico" do país. Na realidade é (e será) uma colossal máquina de queimar dinheiro, com brutais necessidades de investimento a curto prazo e grandes buracos previsíveis nas próximas contas de resultados.
A ideia que Portugal precisa de uma empresa de bandeira é muito difícil de aceitar. Veja-se o caso da Ibéria (em Espanha). A vulnerabilidade das empresas de bandeira à negociação sindical é mais do que óbvia.
Turismo? As low cost são hoje em dia muito mais importantes para isso do que a TAP. Brasil e PALOPs? Haja movimento rentável (e há) e não deixará de existir oferta - porventura até com melhores preços para os consumidores.

4. A verdade é que infelizmente a TAP vale muito pouco - ou nada. Essa é a lamentável realidade.
Não deixa de ser sintomática a falta de interesse do mercado pela operação. O governo precisa de rápidamente voltar ao processo de venda - ou corre o risco da batata quente lhe rebentar nas mãos e ver-se mesmo na situação delicada de poder ter que vir a liquidar a empresa.

5. A solução mais interessante é que a TAP fosse parar ás mãos de um bom operador, que trouxesse investimento e acima de tudo qualificação para as operações da empresa. Digamos que uma Lufthansa ou semelhante seria uma solução desse tipo. Este argumento (recursos financeiros, "expertise" e lideres na tecnologia, com conhecimento avançado no setor) foi muitas vezes invocado (e bem) por este governo, no seu inicio, para justificar o seu programa agressivo de privatizações - mas progressivamente foi esquecendo a cartilha á medida que ia privatizando como conseguia sem conseguir aqueles objetivos.

6. Infelizmente há uma coisa que anos e anos a viajar me ensinaram: a anedota de "take another plane" tinha, e continua a ter, infelizmente, muito de verdade.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Ministro Gaspar vs. estado social

O ministro Gaspar diz (uma vez mais) que “Não é possível financiar funções do Estado que a sociedade não está disposta a pagar” (ver aqui).
Certamente que há limites para tudo e o orçamento de estado não é um poço sem fundo. Essa não é a questão.
Mas parece haver um consenso na sociedade portuguesa: os portugueses querem o estado social que andam a construir á décadas, mesmo compreendendo que há limites - o dinheiro em condições normais pode chegar para as prestações sociais, se não existir o desemprego atual, se a reestruturação dos custos do estado for feita e acima de tudo se a economia não estiver no continuado clima recessivo em que se encontra.
A questão é outra: os portugueses não aceitam uma economia como ela está e não podem aceitar que o dimensionamento do estado social seja feito em referencia a esta situação anómala.
Não são os portugueses que querem demais do estado. O ministro é que não é capaz de responder aos desafios da sociedade.
Os erros de Gaspar & Ca. já levaram o país a uma espiral deflacionária e a uma colossal carga fiscal, que ele próprio considera insuportável. Mas em vez de fazer aquilo que se espera dele - lutar por pôr a economia a crescer - limita-se a chorar e a atirar a culpa para os portugueses que não lhe equillibraram as contas como o modelo previa.
Não é na situação depressiva e calamitosa da economia portuguesa (em parte da responsabilidade das políticas governamentais no ultimo ano) e da política europeia na zona euro (responsabilidade coletiva dos países europeus, especialmente dos países liderantes) que se pode discutir o modelo social do estado, algo que é para décadas e não para amanhã e depois.
As farpas que o ministro gosta de lançar aos portugueses, e que disso parece fazer gala, não são "dizer a verdade". São antes uma confissão pública da incapacidade técnica e política deste ministro.

Circula por aí uma história: este ano não há presépio. Vieram dois reis magos (Balatzar e Melchior) que construíram o presépio. Depois veio o terceiro - Gaspar - que levou tudo, e ficamos sem presépio.
Parece que é isso que está a acontecer.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Uma colossal crise da couve

1. Acabo de ver o programa “Quadratura do Circulo”. Espantoso como se chegou a uma situação de unanimidade dos três protagonistas do programa na avaliação da crise governamental, e como todos estão de acordo que este governo chegou ao fim e não tem qualquer futuro. E todos parecem estar mesmo muito preocupados com a dificuldade em encontrar alternativas governativas no atual contexto político, social e económico. A situação parece ser mesmo desesperada. As trapalhadas das ultimas semanas foram desastres sucessivos em cima de políticas desastrosas.
A necessidade do combate em Bruxelas e o reconhecimento de que o memorando da troika perdeu atualidade e precisa de ser renegociado porque deixou de estar adequado ao desastre que entretanto aconteceu em consequência das politicas governamentais deste ultimo ano, são ideias que parecem também ter reunido consenso no referido programa.
Algures na discussão Pacheco Pereira respostou a Lopo Xavier se achava que uma grande e enorme couve podia dar boas e belas maçãs, ou coisa do género, isso acerca da possibilidade de regeneração ou mudança de politicas pelo atual executivo. Como é óbvio, a couve referia-se a Passos Coelho & Cª (Miguel Relvas aí incluído).
A falta de qualidade do pessoal político deste governo é bem patente e conhecida - incluindo o ministro das finanças. A imaturidade política, a superficialidade ideológica e a impreparação técnica criaram uma mistura explosiva.

2.As reportagens do Publico sobre as negociatas da Tecnoforma (aqui e aqui) são importantes por aquilo que revelam sobre o carácter e a (falta de) experiencia profissional de Passos Coelho & Cª, assim como da cultura e dos métodos a que estavam habituados a cultivar. Têm o mérito de expor as contradições e vulnerabilidades da atual liderança do governo.
Em primeiro lugar, sob a capa de um discurso partidário contra o Estado e a favor do privado, sempre a falar do “despesismo” do Estado, afinal de contas essas criaturas dedicavam-se a ganhar dinheiro, ou a ajudar a ganhar dinheiro, e a fazer negócios à custa do Estado e para isso recorriam aos jogos de poder e de influencias nos corredores dos amigos no Estado (e no partido). Os arautos do neoliberalismo fizeram-se na pior escola do governamentalismo.
Em segundo lugar, o mercado que conheciam e dominavam não era o duro mercado da realidade económica e empresarial, mas sim o das negociatas à sombrinha do Estado e do partido, procurando sacar uns dinheiros dos programas de apoio às autarquias através de propostas de ações de formação mais ou menos inúteis. Os grandes defensores do privado afinal fizeram-se num privado pensado para ganhar à custa das fragilidades do sector publico.
Como pode gente desta lidar com a difícil situação política dos tempos que correm? Como se pode esperar que esta gente tenha estofo, carácter, competência e experiencia para liderar e coordenar um governo real em tempos de séria crise?
E não admira que a formação do governo tenha sido o seu primeiro grande desastre: a sua forma (estrutura) e muitas das pessoas (incluindo o ministro das finanças) espelham a incompetência técnica e política de uma liderança sem experiencia séria de política nacional e internacional. Não bastam boas intenções nem sucesso no controlo da máquina partidária.
A colossal falta de qualidade da atual geração de políticos (incluindo também muitos do PS) é uma das grandes tragédias e desafios do Portugal contemporâneo.

3. E se os relatórios das tais ações de formação, assinados pelo atual primeiro ministro, tiverem “massajado” os números para sacar mais umas guitas ao Estado - como a reportagem do Publico sugere que aconteceu? Que autoridade pode ter um tal primeiro ministro para pedir honestidade e rigor aos contribuintes portugueses, mesmo que recorra a indignados discursos de virgem enganada? E perante estas denuncias, e os testemunhos identificados, pode o Ministério Público ficar indiferente?

4. Foi preciso uma voz estranhamente livre como Helena Roseta para despoletar a investigação do jornal sobre aquilo que era um segredo de Polichinelo e sempre se ouviu sussurrar nas conversas de café. Isso diz muito sobre o Portugal de hoje e sobre o jornalismo de hoje. Ou terão sido também umas contas que precisavam de ser ajustadas entre a liderança do executivo e o jornal?

5. O Presidente da República está também ele metido até ao pescoço numa situação em que tem responsabilidades, e que agora terá provavelmente que resolver com mais do que mensagens subliminares ou recados pelos jornalistas ou pelo facebook. É pena que entretanto tenha alienado a confiança de uma boa parte dos portugueses com o seu comportamento político nos últimos anos.

6. O discurso da irresponsabilidade fiscal dos anteriores governos, em que o primeiro ministro se refugia constantemente para tentar ignorar que também assinou o memorando da troika e que depois prometeu o que prometeu na campanha eleitoral, é uma prova pungente da sua falta de responsabilidade e de clarividência política, numa altura em que já nem Merckel recorre a essa narrativa irresponsável, irrealista e estereotipada. Não admira que até Santana Lopes ache este governo sem futuro. 
Ontem António Costa recordava no referido programa uma genuína e elucidativa “gasparvoice” (um nome inventado pelo Expresso num cartoon de António, quanto compreenda): há poucos anos atrás criticava a irresponsabilidade em Portugal versus a grande responsabilidade do modelo espanhol – como a história é ingrata para esta gente.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A fotografia do ano em Portugal?


Esta será uma das notícias mais interessantes sobre o estado atual da sociedade portuguesa (também aqui)
Pela história conclui-se que
1a. Um dos ministros mais bem penteados deste governo afinal só governa habitualmente de 3ª a 5ªf. De 6ªf a 2ªf trata da sua vida, metendo fim de semana alargado - tratando mesmo da sua vidinha (os negócios do seu escritório de advogado no Porto) às 6ªf e 2ªf. Ao mesmo tempo, a politica de austeridade do seu governo apela a mais horas de trabalho, acabar com feriados e pontes e reduzir os salários dos trabalhadores.
1b. Ou será que estava a tratar dos negócios de Estado no seu escritório de advocacia? Nesse caso a promiscuidade entre o público e privado (em especial em algumas sociedades de advocacia) estará a ultrapassar limites inimagináveis.
2. E para isso não se hesita em repetidamente estacionar em cima do passeio, em grosseira transgressão. Ao mesmo tempo que a sanha persecutória do Estado se tem agravado, das multas de transito à pressão do fisco e à redução de beneficios e das facilidades dos cidadãos, para o agente do poder tudo são facilidades.
3. E ainda por cima um cidadão que fotografe tal situação parece ser tomado como uma ameaça à segurança do Estado e de todos nós. Já chegava da promiscuidade bem conhecida e documentada das figuras gradas deste governo com as secretas - mas nesta história vai-se muito para além disso e banaliza-se a proteção discricionária aos agentes do poder.
Claro que o causidico-fotografo-amador lá terá as suas razões muito pessoais (e profissionais!) para pôr em xeque o seu estimado colega. Mas ao faze-lo está a prestar um serviço aos portugueses.
Haverá "cenas dos próximos capítulos"?

sábado, 8 de setembro de 2012

Um assalto às familias, um enorme favor ao grande capital

Tiro o chapéu aos comentário de José Gomes Ferreira no Expresso Online (aqui) acerca do ultimo anuncio do primeiro ministro: estas medidas anunciadas traduzem-se numa manifesta transferencia de riqueza das familias para o grande capital, e não resolvem nenhum problema estrutural da economia portuguesa.
A questão que ele coloca sobre "para onde vão os 7% adicionais de descontos dos trabalhadores?" é mais do que pertinente - e não se consegue perceber (sem mais explicações) como é que por essa via o dinheiro vai parar ao Orçamento de Estado e, por consequencia, resolve os problemas do deficit público.
Nicolau Santos propõe também uma boa análise da situação (aqui) e conclui:

  • O atual colapso da economia portuguesa não é apenas resultado de erros acumulados no passado. Resulta também da orientação económica que tem vindo a ser seguida. As medidas ontem anunciadas insistem no mesmo caminho. É pouco inteligente pensar que os resultados serão diferentes.
A explicação tentada pelo primeiro ministro (afinal o aumento de desemprego não é consequência das políticas de austeridade, mas sim da falta de financiamento às empresas) é chocante pela irresponsabilidade política que demonstra. Afinal a culpa é só dos bancos (onde o Estado aliás tem um papel importante)! Que a procura agregada tenha caído a pique, e com ela as receitas fiscais, e também o investimento, e que o acesso ao financiamento tenha (pelo menos em parte) sido também por isso limitado, é completamente ignorado. O que diz muito sobre a honestidade e/ou competencia do primeiro ministro e do governo, ou então sobre o seu enviesamento ideológico. Há muito que se sabe que políticas de austeridade em climas depressivos criam espirais recessivas - basta reler o que se escreveu sobre as teorias do "trade cycle" nos anos trinta e quarenta do século passado. Quem ignora isso não se pode depois vir a queixar das consequências desastrosas - como as que estamos a sofrer.
As políticas neoliberais e anti-sociais arriscam-se a destruir o Portugal reconstruido nos últimos quarenta  anos. As desculpas da austeridade não passam de uma cobertura de natureza ideologica para a incapacidade política em defender os interesses nacionais no seio da EU.
Já repararam que apesar de tudo a Espanha ainda não pediu resgate nenhum e que as taxas de juro da sua divida soberana estão a baixar? Será muito interessante observar os próximos desenvolvimentos relativamente às políticas de compra de divida publica anunciados pelo BCE - ao fim e ao cabo, a UE e a Espanha sabem que o colapso de Espanha será inevitavelmente o colapso do euro, inclusive para os países do Norte da Europa.
A ideia de que empobrecer as familias é criar condições de sucesso para o sector privado, e daí para o sucesso do país, tem infelizmente batido contra a parede da evidencia empírica (mesmo fora da zona euro: veja-se o que está acontecer no Reino Unido). Mas o fervor ideologico tem razões que a razão desconhece. Quem diria que a direita ultrapassaria a tradicional capacidade de obsessão ideológica do PCP?

Update, 12 setembro:
Há um mes no Pontal anunciava-se com entusiasmo que em 2013 é que ia ser! Duas ou tres semanas depois anuncia-se que afinal para 2013 se antecipa uma recessão (-1%) e aumento de desemprego (16%). Isso não é uma recuperação da economia, é um agravamento do crise.
O anterior candidato a primeiro ministro (e agora primeiro ministro em exercicio) deu um ar do que ia acontecer quando em tempos viabilizou no parlamento uma ténues medidas de austeridade do anterior governo e depois veio pedir desculpa aos portugueses.
Agora anuncia desastrosas e desastradas medidas de austeridade de enorme violencia e depois vai-se queixar para as redes sociais e (mais ou menos) torna a pedir desculpas - uma atitude que não pode deixar de ser sentida por muitos portugueses como um insulto (ou pelo menos uma garotice) . A falta de estatura, pessoal e política, deste primeiro ministro começa a ser assustadora.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Contra moinhos de vento .... marchar!

Esta é uma história que merece atenção e acompanhamento.
Se o empresário Alexandre Alves conseguir realmente arrancar e aguentar o funcionamento das unidades industriais sobre células e paineis solares, será de se lhe tirar o chapéu. Ainda por cima sem apoios do Estado. Que o projeto é muito ambicioso e que o processo tem sido muito atribulado, isso já era conhecido.
Mas os últimos acontecimentos surpreendem e sugerem um nível de manipulação e propaganda nos media, por parte do governo, que arrepia. A noticia primeiro punha o governo, em particular os ministros da economia e dos negócios estrangeiros, como grandes justiceiros contra a grande vigarice empresarial e falsos projetos megalomanos financiados com fundos de apoio. Em tempo de poucas noticias, deu grandes parangonas. Alguém que tinha a coragem de se virar contra os vigaristas - um discurso subliminar que este governo gosta de passar, mas pouco de cumprir: "vão devolver o dinheiro, e com juros e tudo!", proclamaram aos quatro ventos.
Pouco depois vem o AICEP desmentir o governo: afinal tal projeto nem um centimo tinha recebido de apoio!!!. E com isso confirma as declarações anteriores do empresário, e desmente os ministros. Do fio da história tornada publica é facil de perceber que entre AICEP e empresário devem ter existido guerras, e que os atrasos do investimento tiveram ai um papel. A história de que o empresário não entregou os papeis por não confiar (ou porque não os tinha?) é patética. Mas isso não invalida a manifesta tentativa de manipulação da opinião pública contra o empresário.
Por isso valerá a pena acompanhar os próximos capítulos. Se contra ventos e marés, estes investimentos ambiciosos vierem a acontecer - o empresário fica redimido de passados menos brilhantes (lembram-se da FNAC?). Quem dificilmente pode ficar bem na fotografia será este governo e estes quixotescos ministros que avançaram com toda a garra e com toda a fúria contra moinhos de vento, e disso se vieram  vangloriar para os media. Fica uma dúvida: quem foi o D. Quixote e quem foi o Sancho Pança de serviço? Ou já nem Sanchos por lá existem dignos desse nome?

Update: noticia no Expresso online.

Update 2 (13 agosto 2012) : Perante o "flop" do caso, o poder parece ter arranjado alguém para fazer o frete e tentar uma manobra de distração (ver aqui, aqui e aqui). Para isso recorreu a Zita Seabra, uma dos casos chocantes de futilidade e de falta de coerência na intervenção política das últimas décadas. Que Zita Seabra se preste alegremente a isso, apenas confirma a sua falta de espessura.